Sobre Doria e o 'povo brasileiro' de Ralph Lauren, resta lembrar que "a prática política contrói os interesses que ela representa" (Cutler). Se em Hobbes é o medo (e não o amor) que dá liga e une o grupo, em Doria são as roupas importadas. Voltamos com força ao fetiche do tênis Nike ou Reebok como símbolo de realização e status no neoliberalismo tropical. O consumo ideal transformado em ideal de consumo e forma de vida. Também podemos comer nossos celulares quando sentimos fome, ou usá-los como teletransporte até o trabalho. E não é pouco nojento ver a Folha publicar no pós-eleição matérias sobre o homem-ladrão-banco-forte de Doria.

Em meio às disputas entre narrativas - dos neoconservadores à esquerda atormentada - o que mais assusta é a sem-vergonhice com que a grande mídia assume o papel de redefinir a realidade, legitimando as desigualdes e as relações hierárquicas, e isso num nível tão agressivo que mesmo as liberdades individuais ainda garantidas no liberalismo podem ser destruídas com uma certa naturalidade faceira. A Folha poderia inclusive exigir que seus jornalistas vistam suéter Ralph Lauren ou Lacoste para compor com os ideias que defende tão inescrupulosamente.

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