Que apropriação cultural o quê

Senta aqui que a branca vai explicar um pouco o que é apropriação cultural. Com todo respeito, claro, e uma ajudinha de quem tem lugar de fala.

Quando um pessoa negra usa turbante, dread ou outros elementos da sua cultura, é frequentemente chamada de macumbeira, “cabelo ruim”, essas coisas rudes. Quando é uma pessoa branca, é bonito, estiloso, diferentão.

Mesma coisa com elementos indígenas. A gente massacrou os nossos nativos, e agora pega símbolos importantes da cultura deles para usar sem responsabilidade. Cada pena de um cocar tem que ser merecida, tem um significado. Ninguém gosta de ver um sinal de sua religião sendo usado como enfeite. Principalmente se essa religião (ou cultura) foi dizimada justamente por causa desses elementos.

“Ain, então eu não posso usar turbante?” Não é que não pode. Mas nunca vi um católico ficar feliz quando vê um LGBT sendo crucificado na parada gay (isso que a crucificação vem muito antes, e continuou muito depois, de Cristo). Então se põe no lugar do coleguinha que sofreu racismo a vida inteira, que hoje tem que ralar o dobro só por causa da cor da pele, que não pode usar retratos da sua cultura em paz na rua.

Se fantasiar de índio, de árabe, de qualquer sociedade que sofre um preconceito que a gente nunca vai entender é sim um desrespeito. É tipo falar que loira é burra. É ser caricato. É errado. “Mas a Pocahontas nem existiu, moça” Mas existiram outras tantas índias americanas que sofreram de um jeito que a gente nem imagina. Se fantasiar de Pocahottie é ignorar a luta dessas mulheres, é tratar como imaginário uma coisa que é real e, para os envolvidos, dolorosa.

“E a menina que tava usando turbante por causa da quimioterapia?” Agora ela também está em situação de vulnerabilidade. Ser branca deixou ser o status dela, agora é a vida dela que tá em risco, e o turbante é a sua defesa contra os olhares tortos por aí (minha mãe faleceu, careca, de câncer. Ela recebia muitos olhares de pena por aí, mas também de nojo). Então vamos ter bom senso, respeito e amor ao próximo. É só o que a gente precisa.

E se bater a dúvida do que pode ou não pode, pergunta pro colega que tem lugar de fala no assunto. Tua aparência não vale mais que o bem estar dos outros. Não é o mundo que tá chato, nem que não pode falar mais nada. É a gente que precisa aprender a ver os outros como iguais.