Pena? Ah, não…

Quer desistir? Desiste! Só, por favor, não tenta arrastar gente com você e seu egoísmo.

Acordar pra fazer os deveres é um exercício quase que diário de paciência e perseverança. O sonho da maioria das pessoas sãs é ter uma condição de vida boa pra viver sua vida até a velhice e deixar quem depende delas bem, também. Isso é o instinto básico de sobrevivência humana.

Tirando doenças ou o fato de ter responsáveis que passaram a mão na cabeça da criança/jovem a ponto dele não querer trabalhar, todos que respiram têm esse propósito na vida. Até os políticos, veja você, têm que estar num escritório assinando papéis ou em reuniões que duram horas a fio. Isso é um modo de trabalho. Mesmo que seja pra roubar o dinheiro público. Eles se esforçam pra isso.

Mas vamos falar da desistência com “o que não dá certo”. Aliás, o que é dar certo?

Dia desses eu peguei um Uber vindo do trabalho. Fiz milhões de coisas no escritório e depois fui fazer uma cobertura de algo no outro lado da cidade. Foi longe demais. Mas fui e executei tudo. Voltando no Uber estava conversando com o motorista. Ele me contou que se sentia realizado com o que fazia. Que gostava do que a esposa dele dizia à filha dele, que “o pai tinha saído pra trazer o leite e o Nescau”. A realização do amigo Uber era essa.

Me lembrei, também, do meu tio. Ele que, hoje, é oficial da Marinha do Brasil. Tem uma vida estabilizada e vive razoavelmente bem nos seus cinquenta anos. Mas não foi sempre assim, pelo contrário. Cresceu numa família completamente desestruturada. Pai batendo na mãe lá na meiuca de Belém do Pará. Estudou. Estudou, sério, pra caralho. Terminou os estudos, fez prova pra um banco. Passou. Viu que “não era suficiente” e estudou pra um concurso da Marinha aqui no Rio. Terra distante e desconhecida. Passou. Fez provas lá dentro. Passou. E passou. E passou de novo. Nesse meio tempo fez economia numa federal do Rio, também. Graduado com louvor. Um exemplo. Mas amava isso tudo? Quem diz? Eu digo: não. Estabilizou a vida e foi fazer uma faculdade de letras. Depois dos quarenta. Se realizou? Amava aquilo? Quem diz? Eu digo: não tanto quanto achava. O que foi fazer? Melhor… o que anda fazendo? Direito. Tá realizado? Não sei. Mas continua tentando.

Ah, lembrei de mim, também. Nunca fui pobre como minha mãe. Irmã do meu tio. O da família desestruturada. Nunca faltou o “de comer” lá em casa. Pelo contrário, se sou um gordinho lacrador, devo à alimentação abastada, praticamente “de vovó”, da minha mãe (Acho que ela nasceu pronta pra isso. Ser avó). Mas também não nasci em berço de ouro. Do contrário, sempre tive que ter minhas coisas queridas pelos meus próprios braços. Todo mundo na aula tinha celular. Só ganhei um no terceiro ano da escola. O de todo mundo tirava foto e tinha flip. Eu me orgulhava de ter lanterninha laranja e ter um joguinho de blocos onde me sentia o rei. Meus pais levavam muito a sério aquela história de “você não é todo mundo”, aliás. Fica aqui o meu protesto. Mas nunca me abati. Pelo contrário, aquele celularzinho me ajudou a gostar de algo que não fazia ideia que gostaria uns anos na frente: escrever. Pois é, nele eu escrevia piadinhas e ficava mandando pros meus colegas de classe. Mensagem? Claro que não! Meu celular rodava a classe de mão em mão e, por uma época, me senti adorado. Mas fui levado a esquecer isso. Que escrever o quê! Isso não dá futuro! Vai trabalhar na confecção de bolsas do vizinho. Vai trabalhar na estamparia do amigo do pai. Vai trabalhar na fábrica de 8 da manhã às 10 da noite. Dizem, aliás, que os lanches lá são ótimos. Vai trabalhar no lava-jato ganhando 18 reais por dia. A garantia é que você vai rir demais. Pneumonia? Que isso! Lenda! Vai trabalhar na fábrica de madrugada, dia sim, dia não. Ah, não quer estudar o direito que tô te obrigando a fazer? Então vai trabalhar na empresa de ônibus de 10 da noite às 5 da manhã, esperar dar 7 da manhã pra ir pra faculdade (que era a única coisa que dava pro dinheiro da empresa de ônibus pagar) estudar o que você quer. Publicidade? O que faz um publicitário? Você realmente não sonha em fazer direito QUE EU ESTOU PAGANDO PRA VOCÊ e virar um servidor público pra trabalhar pouco e ganhar “ok”? Você é maluco!

Não. Eu não quis. Se tive medo, no decorrer das coisas, que eu tivesse que voltar atrás implorando pra voltar pra faculdade de direito com tudo pago quando as coisas dessem errado? Bom… foi meu MAIOR medo. Mas consegui apertar o inapertável e “venci”. Hoje trabalho escrevendo. Ainda não é o que eu quero, mas tô mais perto que estaria se estivesse embaixo de um caminhão dando pino nele.

Agora… sério… você realmente acha que é difícil pra você? Eu entendo que você possa ter uma condição. Passou no psiquiatra porque viu em alguma rede social que isso podia ajudar e ele te receitou um remédio sem, às vezes, nem olhar na sua cara. Ou talvez realmente tenha. Não me cabe julgar e nem deveria interessar pra ti o meu julgamento. Apesar de, por mais que com palavras duras, esteja correto.

Difícil tá pra quem tem a família morta por qualquer peste que seja e é acolhida por um governo sem o menor preparo e com a menor vontade de acolher você de verdade. Difícil tá pra quem vive em uma zona de guerra sem perspectiva nenhuma de saída. E, quando tem, ainda esbarra com uns Zés Cucetas de marca maior que não tem o mínimo de empatia pra acolhê-los de uma forma humana. Difícil tá, também, pros filhos que vão crescer em uma família desestruturada igual à do meu tio e não vão ter a ciência que ele teve de que estudar pra “ser alguém na vida” é a melhor solução. Esse último até certo ponto, também. Mas difícil tá pra eles.

Pra você, não. Graças ao milagre da vida, você tem duas pernas. Dois braços que, mesmo não sendo tããão fortes, podem ser trabalhados pra o ser. Respira. Ainda que não seja uma respiração maravilhosa, respira. Tem uma boca que podia ser usada pra fazer contatos e procurar novos ares em vez de lamentar a existência. Tem olhos que deviam enxergar além do hoje, não pra vida dos outros que anda, diferente da sua enquanto você perde tempo lamentando.

O mundo, infelizmente, vou ser sincero, infelizmente MESMO é cruel pra cacete. O dono do lava-jato nem sempre vai passar a mão na sua cabeça por ser amigo do seu pai. Por mais que você adiante o máximo a vida do seu encarregado na empresa de ônibus, quando ele tiver a oportunidade de ver uma merda feita por você, os palavrões que ele vai te xingar não vão ser enfeitados com glitter. O mundo é mau. A gente só precisa saber como lidar com ele. Fazendo o nosso da melhor maneira possível. Estagnar e aceitar que nada vai melhorar. Ou ser medíocre como a maioria das pessoas.

Eu não sinto pena de ninguém. Na verdade até sinto, vou ser sincero. Numa primeira oportunidade. Quando vejo que a pessoa está desorientada. Mas indico o caminho a ser seguido. Se ela vai conseguir ou não, não é problema meu.

O suicídio parece uma boa opção? Sério que você acha isso? Namoral?

Por mais que você ache que ninguém se importa com você, a vizinha fofoqueira vai sentir falta. Você não deve nada a ela? Não, não mesmo. Mas ficar na boca das pessoas por esse motivo, por ser um insignificante que desistiu vai ser REALMENTE de bom tom? Não tô falando pros outros. Pra você mesmo. Bom, eu odiaria.

Deixa de ser fraco, levanta. Se ama um pouco. Respira bastante e segue. A vida não é horrível e triste como o tumblr mostra, não. Ela é até legalzinha de se viver. É só entender ela, confia em mim.


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