[EU NÃO ESCOLHI A ESQUERDA]

Quando adolescente, queria ser atriz. Meu pai me presenteou com o livro “A estrela sobe”, do Marques Rabelo (entendedores, entenderão).

Aos 17, quando decidi fazer comunicação, ouvi: “- Tão inteligente, vai ser jornalista?”.

Aos 18, quando decidi fazer Letras: “- Tão inteligente, vai ser professora?”. Foi unânime também a perplexidade nesta mesma época, quando passei em segundo lugar geral na UFMG: “- Podia ter passado em qualquer coisa — Direito, Engenharia, Medicina, Ciências da Computação — mas escolheu Letras!”

Antes dos 30, bem sucedida profissionalmente, quando decido deixar uma grande corporação e voltar para academia: “ Por que você está acabando com a sua vida deste jeito?”

Mas, ano vai e ano vem, ora as pessoas desistem de entender, compartilhar e dar pitaco nas minhas escolhas, ora entendem que, nos fim das contas, somos os únicos responsáveis por nós mesmos, e que se cuidarmos da nossa vida e da nossa própria história — mesmo que o caminho não seja tão linear — ainda sim é incrível, muito incrível…

E estou falando isso tudo, porque quem convive comigo diariamente sabe que o meu tempo é curto, muito curto. Sabe também que vivo com a urgência de quem tem sede, muita sede. Sabe, inclusive, que vivencio um momento em que é necessário focar — e, no meu caso, focar na pesquisa que envolve questões de gênero, feminismo, design, resolução de problemas extremamente complexos, violência contra mulher, rede e corpo — não necessariamente nesta ordem, mas na mesma intensidade.

E sabe, sobretudo, que eu não escolhi a ESQUERDA. Sabe que eu sou a ESQUERDA. EU SOU ESQUERDA. E isso é essência. Conheci um senhor recentemente — uma das pessoas mais incríveis que conheci nos últimos tempos, diga-se de passagem (um beijo, Raimundo Soares) — que me ensinou que ser esquerda não é uma questão de escolha, ser esquerda vai muito além disso, está relacionado com o próprio ser.

E talvez, uso o adjetivo desta nomenclatura política — cuja origem está lá na Revolução Francesa — para qualificar-me e me posicionar politicamente, porque através dos seus preceitos consigo deixar bem claro — ou pelo menos acredito que sim — que reconheço a importância dos movimentos políticos e sociais vislumbrados pela esquerda para transformar este mundo, diminuir as desigualdades, exterminar — de uma vez por todas — com as injustiças, promover a igualdade e a liberdade de gênero e repensar as regras deste mercado um tanto quanto avassalador, que escraviza seres humanos em detrimento do consumo exacerbado e descarta pessoas, como diria Bauman, em “Vida para o consumo”, caso elas não comprem.

E ser esquerda, meus caros, é preciso deixar bem claro — para que eu não precise ficar me explicando todos os dias — seja aqui, acolá, presencialmente ou virtualmente — que esta muito além de compartilhar com os ideais ou compactuar com um dado partido. SER esquerda, meus queridos, está relacionado a SER, à essência — e isso a gente não muda.

Sendo assim, sejamos!
E PONTO.

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