Vamos falar de Des(amor)?

Fragmento da obra Prenez Soin de Vous

Se no início era o verbo, o amor já estava lá. 
Concreto e abstrato. Ir(REAL). Im(POSSÍVEL).

Duvida?

A arte está aí, justamente, para nos lembrar disso o tempo todo. Camile Claudel, Zanele Muholi, Frida Kahlo, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Mercedes Sosa, Sofonisba Anguissola, Zelda Wynn Valdes e quantos outros, aliás, quantas outras artistas nos colocam cara a cara com o des(amor) em suas obras o tempo todo.

Sophie Calle que o diga!

Sophie Calle

Re(inventar) a si mesma, nas entrelinhas das reminiscências de suas histórias, tem sido a força motivadora do seu processo criativo.

A artista plástica parisiense, nascida em 1953, desde o início dos anos 80, transforma suas paixões, seus encontros e desencontros, seus ressentimentos e expectativas em processos inventivos, que se desdobram em verdadeiras obras de des(amor) e se materializam pelo cruzamento entre o passado e o presente, entre o trabalho manual e a tecnologia, entre a presença e a falta, entre a verdade e a ficção.

Em Prenez Soin de Vous — uma das obras mais avassaladoras de Sophie Calle — isso tudo fica latente!

Fragmento da obra Prenez Soin de Vous

A instalação foi apresentada pela primeira vez na 52ª Bienal de Veneza, em 2007 e rodou vários países, inclusive veio ao Brasil, onde foi exposta no Museu de Arte Moderna de Salvador e também do SESC Pompeia, em São Paulo, em 2009.

A obra é resultado da tentativa de expressar — superar e compreender — o rompimento de mais um dos seus relacionamentos amorosos. A artista recebeu um e-mail do namorado — após seis anos de relacionamento — rompendo, definitivamente, o romance, sob a justificativa de que não atendia às expectativas de Sophie que, na era do efêmero e da fragilidade dos laços humanos, almejava um relacionamento consistente, sólido e monogâmico.

e-MAIL

Fragmento da obra Prenez Soin de Vous

“Sophie,

[…] Como você pode ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a quarta. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as ‘outras’, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas. 
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e ‘generoso’, se aquietasse com o seu contato na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais, tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu ‘desassossego’ se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta a semana, comecei a procurar as ‘outras’. E sem que o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar
[…]
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide-se

Grégoire Bouillier” [1]


A instalação exibiu — na íntegra — o e-mail, omitindo, apenas, o nome do autor da mensagem, Grégoire Bouillier, sob a indumentária artística, isto é, com status de obra de arte, interpretado por 107 mulheres e, de maneira irônica, por duas marionetes e uma cacatua.

O gesto do escritor expurgou toda a vivência do casal, reduzindo-a, retoricamente, à sua indisposição de dar continuidade à ‘aparente história de amor’.

O gesto de Gregóire, cuja perda de sentido situa-se no desaparecimento do corpo, foi examinado minuciosamente, re(interpretado), assimilado com as mais diversas acepções, exaurido pela repetição, assistido e, sinestesicamente, re(inventado) por Sophie e suas interlocutoras.

Juntas, questionaram o gesto, propuseram performances que configuraram o corpo do e-mail e, como um grito ecoado por muitas vozes, reagiram de maneira provocativa, irônica, catártica e sutil.

Prenez Soin de Vous é uma obra metafórica, cujas múltiplas interpretações da série de trabalhos apresentada — gravuras, desenhos, vídeo-instalação e fotografias — transcendem tanto o gesto, quanto o ato em si, imprimindo à obra uma espécie de devir autêntico e, por que não dizer, resistente, o que a exime do mero espetáculo da intimidade, tão comum aos dias de hoje.

O desafio proposto por Sophie envolve uma série de estratégias discursivas — descentralizando e deslocando tudo o que poderia ser preestabelecido por olhares não iniciados — almejando — antes de tudo — um lugar onde a observação reiterada dos vários modos de apresentação de um mesmo objeto deve ser a premissa para a compreensão e interação com as linguagens expostas.

Ao observarmos a cacatua Brenda, picoteando uma cópia do e-mail, durante um minuto e oito segundos — de maneira voraz, eriçando as penas, incorporando a ação e balbuciando “Eu sempre vou te amar” — a provocação angustiante perturba, ao mesmo tempo em que o bizarro e a banalidade se entrelaçam e reconfiguram a dimensão de realidade que todos nós — enquanto espectadores — poderíamos creditar ao amor.

Sophie transita na tênue fronteira entre o real e o ficcional. Transforma a angústia diante da vida em arte, apresentando uma experiência estética proporcional à sua memória, aos seus afetos, à sua capacidade criativa e a ambiguidade indissociável da sua própria concepção de sentido. No catálogo da exposição, a artista pondera: “Não desejava vingança. Procurei me guiar apenas pelo senso estético”.5 No entanto, Fernando Pessoa já nos atentava: “o poeta é um fingidor”. Mário de Andrade, em um outro momento, pediu que suas cartas só fossem publicadas cinquenta anos após a sua morte, pois temia algum ressentido.

Vingança. Refúgio. Incompreensão. Des(amor). Sophie justifica:

Recebi um e-mail dizendo que havia acabado. Não sabia como responder. Foi quase como se não tivesse significado nada. Ele terminou com as palavras, Cuide-se. Segui esse conselho ao pé da letra.
Pedi a 107 mulheres (e também a duas bonecas e uma fêmea de papagaio), escolhidas por suas profissões ou habilidades, para interpretar a carta. Para analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Dessecá-la. Exauri-la. Compreendê-la para mim. Responder para mim.
Foi uma forma de ocupar o tempo da ruptura.
Uma maneira de cuidar de mim mesma. [2]


Ironia ou não, até hoje não aprendemos a amar.


1 Cópia do e-mail enviado à Sophie Calle por Grégoire Bouillier.

2. Justificativa de Sophie.

3. www.labiennale.org/it/asac/indez.html

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