Crônica de uma janela embaçada

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. – ou não -

Estava tudo parado. Uma bagunça. Ninguém se entendia, ninguém andava. E ele estava lá, naquele meio, olhando pela janela o mar de luzes vermelhas que saiam das lanternas traseiras dos carros à frente e que alcançavam o banco traseiro em que estava sentado. A chuva que caía lá fora só favorecia o cenário que mais lembrava aqueles clipes de músicas melancólicas que surgem no Youtube. Então a respiração dele embaçou o vidro. Viu-se pensando nela.

Quando deu por si já era tarde: estava emaranhado em pensamentos confusos. Era uma pipa no olho de um furacão. Parado fisicamente no maldito trânsito, porém vagando mentalmente. Pela enésima vez pensava nela nos últimos meses. Não, espera! Não pensava nela. Pensava neles.

Sim, neles. No plural mesmo. Se deu essa liberdade. Pensou no quanto gostava de conversar com ela, como ficava feliz em receber uma ligação e ficar, muitas das vezes, mais de uma hora falando sobre tudo, e ao mesmo tempo falando sobre nada. Pensava no quanto encarava sua foto do Whatsapp, sempre a procura de algum novo detalhe, alguma coisa que lhe fizesse descobrir uma novidade sobre ela, algo que tivesse deixado passar durante o convívio.

Snoopy e Charlie Brown, por Charles M. Schulz

Eles brigavam. Mas não porque ela estava errada e ele certo. Eles brigavam porque ele gostava de brigar e porque simplesmente adorava se reconciliar. Estava em sua natureza, e ela era absolutamente perfeita em lhe dar esse prazer. Ela implicava com todos os contatinhos dele, sem saber que comparados a ela eram apenas distrações. Ela sempre falava para ele beijar outras bocas, sabendo [ou não] que ele estava querendo a dela. Era fácil eles se desentenderem… Mais fácil ainda como se acertavam em 2 segundos.

Era nela que ele recorria a pensar quando estava lavando louça (todos sabiam o quanto ele odiava lavar louça) e era nesse instante de viagem mental que se distraia e sentia-se bem. Ela era instigante, gostava de jogar o jogo, mantinha-o acordado a noite toda. Quando dançava, o corpo era pura energia, parecia que de uma hora pra outra ia soltar faíscas. Por muitas vezes o levava nas alturas e soltava em queda livre, sem nem precisarem se levantar.

Enquanto pensava tudo isso estava acompanhado daquilo que nunca abandonara: seus fones de ouvido. E neles tocavam uma música que muito lhe lembrava ela, como se nem o aleatório da playlist estivesse disposto a lhe tirar daquele transe, tornando tudo ainda mais clichê. Ele tinha pavor ao clichê. Desbloqueou o celular [que surpreendentemente não acusou nenhuma mensagem dela] e apertou o “próximo”. Pouco adiantou. Uma após outra as músicas iam surgindo, servido de lembrete quando os trechos sempre remetiam a algo pessoal dos dois.

Subitamente achou a explicação de porque lhe mandava tantas músicas: certamente as melodias diziam coisas que ele deveria falar, porém não fazia. Nunca. A colocou na friendzone, como faz com a maioria. Cometeu esse erro. Se apegou rápido, não soube o que fazer, mas, já era ali, muito amigo. E o medo de estragar tudo falou mais alto. E ele manteve tudo para si.

Mas isso não lhe deixava frustrado, pelo contrário. Era muito feliz sendo seu amigo. MUITO! A ponto de achar aquilo o melhor para os dois. Assim eles poderiam dividir tudo, e ouvir tudo que tinha para ser dito.

Eu disse tudo? Quis dizer quase tudo.

Mesmo sendo amigos havia coisas que ele não queria ouvir. Podia, mas não queria. E por isso, dizia que não queria saber. Ela o chamava de grosso, antipático, mas ele não sabia fingir bem quando chegava Domingo e ela tocava no assunto que ficou com A ou B na festa da noite anterior; e dias depois, ao ir lhe falar que além do carinha não ter ligado ou mandado mensagem, ainda teve a audácia de ficar com a menina que ela mais odiava (ou com a melhor “amiga”). Ele gostava de vê-la sorrindo, e não suportava que fizessem o contrário.

E dentre essas muitas coisas que deixou de falar, uma delas é que a amava. Na verdade não deixou de falar. Só preferiu dizer de outros modos. Não queria falar “Eu te amo!” pelo Whatsapp, acompanhado de um emoji de coração azul. Isso não fazia o estilo dela.

Ele queria falar “eu te amo” em cada letra de música que mandava pra ela, em cada gargalhada que eles davam juntos, em cada simples presente que trocavam — não importa se era uma viagem pra Bruxelas ou um chocolate de 30 centavos. Em cada marcação de Facebook sobre coisas que cada um sabia que o outro gostava, em cada like que deixava de dar em suas fotos. Sim, deixava de dar para não deixar óbvio pra todo mundo o quanto ele curtia não só as fotos dela, mas ela toda.

Não queriam ser como Gregório e Clarice, que mesmo separados tem que conviver com tantos “vocês deveriam ficar juntos, são tão lindos”. Ela não era Clarice. Ele muito menos era Gregório. Queria que continuassem sendo como era. Ele sendo ele e ela sendo tudo isso que ela podia ser.

Essa intensidade com que se envolveram não evitou que percebesse em qual dia e momento ela entrou na vida dele, com os dois pés na porta, arrebentando tudo. Não foi na fila do pão, não foi no saguão do aeroporto esperando o avião. Foi em uma das tantas redes sociais que eles estavam conectados. Tudo por uma simples mensagem.

Porém, o mais importante é que ela estava na rede que mais importa, no cotidiano, sempre pronta para ouvir, aconselhar, lembrar que o contato diário é o acontecimento que mais o deixava feliz. Ele gostava de faze-la rir. E gostava mais ainda de rir com ela.

Não importava se os lábios dos dois haviam se encostado uma, duas, três ou zero vezes. Eles sabiam como fazer isso acontecer. Se iam ou não fazer acontecer era a verdadeira questão. Ninguém precisava saber deles. Quando as amigas perguntavam eles mudavam de assunto. Elas nunca entenderiam.

Quando ela dizia que ia dormir, ele implorava internamente para que ela não fosse e passasse mais dez minutinhos conversando. Mas só internamente, porque era muito orgulhoso para dizer isso. Muito orgulhoso até para chama-la pra conversar. Na verdade ele nunca chamava ninguém. Tinha receio de estar atrapalhando, ou parecer chato. Mas vontade não faltava. Porém, quando o celular vibrava com mensagem ele vibrava junto. Era só alegria. Corria pra responder na mesma hora.

Ele achava muito estranho explicar isso, porque era um misto de emoções e desejos por essa menina bela que surgiu do nada. Menina? Mulher! Deusa com ar de menina. Não entendia como seu amor podia fazer o que ninguém mais podia. E isso lhe deixava louco. Sem sentido, dividido entre o que deveria fazer. E ali ele estava pensando “Quem ela pensa que é pra fazer isso comigo e vir na maior cara deslavada, como se nada tivesse acontecido?”. Foi quando percebeu que na verdade nada aconteceu. Pelo menos não pra ela.

Ele queria leva-la pra viajar, tirar fotos, mergulhar, ver um pôr do sol maneiro… Mas ao mesmo tempo queria ficar em casa vendo um filme no Netflix, cozinhar juntos, jogar vídeo game, finalmente dançar AQUELA UMA DANÇA que eles tanto precisavam… Mas isso só era possível em seu consciente (e inconsciente quando sonhava com ela).

Mas essa noite seria possível sim. Ela era uma das melhores coisas que lhe aconteceram no ano. Não havia dúvida nenhuma sobre isso. A pessoa responsável por faze-lo acordar com aquela vontade de recomeçar o ritual diário de troca de mensagem, que os mantinham envolvidos, quase que hipnotizados por horas e horas. Ela tinha que saber disso.

E do alto de suas incontáveis Alices, Julias, Robertas, Luizas, Saras, Eduardas, loiras, morenas e ruivas… Ele continuava sabendo em qual depositar seus sentimentos. Era nela. Tomou coragem e decidiu falar tudo o que sentia. Mas e se não fosse recíproco? E se fosse só mais uma decepção? E se estragasse a relação amigável quase perfeita entre eles? Era muitas dúvidas, muitas incógnitas.


Sentiu o engatar da marcha. Um caminho alternativo se abriu pelo trânsito. O carro avançou e deixou o caos para trás. E junto com o caos ficou a coragem, seus planos para os dois.

Ele não falou nada para ela naquela noite.

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