Por Dentro do Tubo

Por Júlia Savassi Ferreira Petres

No mundo de quem vive sobre as ondas é comum escutar ou ver estampado em pranchas, os seguintes dizeres: “A vida é surfe, o resto é uma onda”. A princípio, de fato uma frase surf lifestyle. Mas, mergulhando fundo encontramos algo que diz respeito a uma trajetória de vida.

Ao entrar no mar atrás de ondas perfeitas, um surfista se vê diante de aprendizados e desafios: o local certo para se posicionar, realizar a leitura correta da onda, enfrentar seus maiores medos e aperfeiçoar os pontos fortes evidencia que uma onda perfeita jamais existirá por si só; é resultado da escolha de cada um.

Foi esbarrando neste paradoxo entre adotar o surfe como vida e construir uma carreira voltada para o esporte, que André Gioranelli deu a remada inicial em sua história, na década de 1980, aos nove anos de idade, entre o Postinho e o Quebra Mar da Barra da Tijuca (RJ). Nascia ali um contato com o mar que, talvez na época, Gioranelli ainda não imaginasse que seria algo tão definitivo para a história que estava a ser traçada.

Somente por volta dos 17 anos, depois de já ter conhecido e criado algumas experiências em competições locais, chegando a competir até mesmo em categorias acima da sua, que o carioca começou a pensar em se tornar surfista profissional. Foi então que André Gioranelli se viu diante de uma verdadeira fase de transição, assim como a parte crítica de uma onda, na qual o lazer passaria a ser também profissão. Para isso, precisou se adaptar às novas condições de treino, que exigem total disciplina e dedicação e também passou a se preocupar com aspectos que seriam necessários para se manter, ou seja, ter um bom patrocinador. “Sem um patrocínio, muita gente boa fica no meio do caminho”, afirma.

Mas ficar pelo caminho não foi uma opção para Gioranelli, também conhecido como Giora, que acabou por fazer parte da elite profissional do surfe brasileiro durante quatro anos, agregando inúmeras experiências que segundo o próprio, proporcionaram a oportunidade de competir contra os melhores surfistas do Brasil, e assim, aprendendo com cada um deles. Foi também graças a este montante de lembranças da época que o carioca começou a construir uma de suas principais características, ser reconhecido por ter uma memória inigualável a respeito da história geral do surfe.

Retornando a metáfora sobre a vida, o surfe e as ondas, após quatro anos enquanto integrante da elite brasileira do surfe, o surfista se viu diante de uma situação semelhante à parte crítica de uma onda tubular e, em 2006, optou por trocar as ferozes ondas da Barra da Tijuca pelas formações perfeitas de Santa Cruz, na Califórnia (EUA). As razões da mudança incluem falta de patrocínio, qualidade de vida, segurança e o principal, surfar ondas de qualidade. Além disso, morar na Califórnia o colocou ainda mais próximo da WSL (World Surf League), sediada na cidade de Santa Monica, que mais para frente se tornaria responsável por conciliar, mais uma vez, surfe e vida profissional.

Para qualquer esportista, os momentos de transição são sempre complicados, sobretudo se tratando de um novo imigrante na Califórnia. Sobre esta fase inicial Gioranelli comenta, “Os processos de transição são a parte mais difícil para qualquer atleta profissional, não foi fácil e eu só comecei a trabalhar com a WSL depois de quatro anos na Califa, trabalhando duro e pesado como qualquer imigrante”.

Foi então que, em 2010, por meio de uma iniciativa da WSL em concretizar a transmissão on line em português das etapas do CT (Championship Tour) do Circuito Mundial de Surfe, que Giora foi convidado, por Mano Ziul (criador do sistema de computação para notas dos campeonatos de surfe e responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de transmissão da WSL), a fazer parte da equipe de transmissão da Liga no evento “Hurley Pro”, em Trestles, também na Califórnia.

Desde então, Gioranelli se firmou como analista da WSL e integrante da equipe de transmissão responsável por analisar, comentar, narrar, entrevistar e apurar detalhes do tour juntamente com Klaus Kaiser e Pedro Muller. Após estes quase sete anos de profissão, a equipe comemora a ótima aceitação do público e os progressos alcançados nos últimos anos. Além disso, ao longo de todo este tempo na WSL, o ex-surfista profissional também colecionou momentos inesquecíveis, participando de marcos históricos do surfe que ficarão eternizados. Quando perguntado sobre suas principais transmissões, o mesmo não hesita em mencionar a entrevista com Gabriel Medina, em 2014, no Hawaii, em seguida do momento em que se sagrou como o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe e, no ano seguinte, a entrevista com Adriano de Souza, após também conquistar o título mundial. O analista também ressalta que todas as suas transmissões são particularmente importantes, mas sem dúvida, sua mais recente oportunidade de realizar entrevistas em inglês na etapa brasileira do circuito “Oi Rio Pro” se tratou de algo realmente desafiador e que também o marcou. Além disso, Gioranelli ressalta o bom relacionamento com todos os atletas brasileiros integrantes do Circuito, “Todos eles são nota 10!”.

Klaus Kaiser, André Gioranelli, Mano Ziul e Pedro Muller. (Foto: People on Tour)

Ainda sobre os incríveis resultados do surfe brasileiro nos últimos anos, é notável que o esporte em questão vem passando por inúmeras mudanças, incluindo a modernização de equipamentos. Sobre esta união entre tecnologia e resultados positivos, o analista da WSL, que também é conhecido por ser um grande estudioso de equipamentos e detalhes do circuito: “Com toda essa tecnologia tudo ficou mais fácil. Antigamente não existiam treinamentos específicos para os surfistas, isto sem falar no equipamento que, a cada ano, tem passado por melhoras. O surfista de hoje é muito mais profissional do que há 15 anos, ele é também muito mais preocupado com o seu treinamento dentro e fora da água, acompanhado da parte da alimentação e descanso”, comenta.

Sobre o futuro e os próximos desafios a serem alcançados, visando o grande sucesso da equipe de transmissão brasileira nos eventos do CT e, o grande número de surfistas brasileiros participando do QS (Qualifying Series — divisão de acesso), incluindo participações especiais de atletas do CT, André Gioranelli acredita que, sem dúvida, é uma questão de tempo para que o próximo grande passo a ser alcançado pela equipe, seja a transmissão em português dos eventos referentes ao QS. Nesta trajetória de quem escolhe viver o surfe, ainda existem inúmeras ondas e novos desafios a serem encarados, dentro e fora da água.

Like what you read? Give Júlia Savassi a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.