Capítulo III — O bloco dos gritantes carnavais de insegurança

Até então optei por narrar as experiências vividas, em lugar de sugeri-las transfiguradas pela ficção, mesmo sabendo as conseqüências disso.

De antemão aviso que recuso o uso de pseudônimos, não me interessa proteger ninguém, nem você, leitor.

Assim, confessarei tudo o que importar a minha história, a audiência fica a critério do leitor. Se apesar do aviso, quiseres continuar não responderei pelos danos causados.

Eugenia Loli

Capítulo III — O bloco dos gritantes carnavais de insegurança

No visor, um nome: Mayla ligando.

Saudosa Mayla!

Sétima série éramos eu, ela e Rafa.

Atendi e percebi desespero, um pedido de ajuda, urgência e a oferta de me pagar um táxi até sua casa.

“Tem a ver com o Rafa”, foi apenas o que ela disse. Talvez, por sarcasmo, ela e Rafa, anos depois, reataram contato e namoraram.

Até aí, pensei em todas as agressões passíveis de um homem exercer sobre sua companheira e ela não ter dito nada direto foi opressor.

Nada do que eu pensei permeava a situação que iria encontrar: A agressão não era contra ela, mas contra si mesmo.

Depois de horas de conversa, sobre o valor da vida, seus sentimentos, a doença e os tratamentos, Rafa já saturado, pediu licença para ir embora. Eu não soube reagir, fui atrás. Da ponta da escada pedi pra ele me esperar pra ir embora, já que eu não sabia voltar sozinha.

Giclée

Ele não me ouviu e subiu no portão. Eu sem entender vi ele tirando a blusa de frio, forcei a vista pra ver do que se tratava. Tomei coragem pra me aproximar o suficiente pra vê-lo se pendurar pelo cordão da gola de seu moletom. Desesperada, pus-me embaixo dele e comecei a empurrá-lo para cima, desafiando minha capacidade de aguentar o peso de seu corpo e a força com que ele se debatia com desejo de me afastar.

Soltei-o, era incapaz de impedi-lo sozinha.

Subi, dei uma faca na mão de Mayla e disse “corre e corta o cordão”, peguei uma tesoura e disparamos em direção a ele.

Em parte, quis cortar a corda, em parte não. E antes que me julgue pela frase anterior, lhe pergunto: como você agiria perante uma tentativa de suicídio?Eu, por uma fração de segundo me vi no lugar dele.

Imóvel, não sabia se decidia por ele ou deixava-o tomar o fim que escolheu. O ânimo de confessar aquele meu pensamento não é algo de que me orgulhe, tampouco me envergonhe. O que há em nós é sempre. Sempre questão de deixar ser. Sempre questão de deixar ir. Deixei-o ir.

Não tem um dia se quer que não pense no que aconteceu.

No mal que isso fez a mim e a Mayla.

Nunca mais tive notícias.

E assim como toda bossa é nova e você não liga se é usada, todo o carnaval tem seu fim.

* * *