Capítulo IV —A saudade que parou o tempo
Confessarei apenas o que for importante, mas para isso, é necessário ser fiel à subjetividade que um fato pode carregar.
E esse fato, em particular, é só uma fração de tudo o que sou capaz de sentir.
Vou colocar nos dedos as reminiscências que me vierem vindo.
E é o que vais entender lendo.
“Eu, agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?”
Capítulo IV — A saudade que parou o tempo
Me haviam comentado que idealizamos a afeição que devem ter conosco. Achamos que merecemos afeição e cuidado, mas não nos atentamos em proporcionar isso.
E se é que eu entendo de amor, aqui vai um conselho, leitor: ame até o que podem tirar de você!
Há certa crueldade nos que dizem que te amam, mesmo que pequena. Porque nas entrelinhas, querem dizer que amam o modo como você os fazem sentir, principalmente consigo mesmos.
É claro que não é simples assim, mas precisarei só de mais alguns parágrafos pra te convencer que isso não é tão ruim quanto parece.
Acordo pela manhã e penso, sobretudo todo dia, sobre o mesmo assunto. Sobre aquele trecho de Nietzsche que não me abandona a cabeça: “como valentes confrades fantasmas, com os quais proseamos e rimos, quando disso temos vontade, e que mandamos para o inferno quando se tornam entediantes”. No fim, foi isso que aconteceu, né? Eu, agora — que desfecho!
Ele não era a causa, ele era o abismo.
Foi primavera, foi verão e foi outono, mas quando o inverno chegou eu sabia que já era tarde. Aliás, era o único fim evidente. Eu só não sabia, mas aquela monotonia acabou por me cansar também.
Eu me consolei mais ou menos da pessoa que perdi. Pois procurei um rascunho seu que já tinha mais .
Por pouco gostaria de ser verdadeira ao dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu. Porém só estaria sendo sincera ao dizer que se só seria feliz se a conjugação dessa frase fosse diferente.
É que sua correspondência nunca chegou!
Hora ou outra me permiti fumar um cigarro sentada naquela janela e chorar saudosista ouvindo Quando bate aquela saudade. Na suposição de voltar àquele agosto reviver novamente toda a parte boa entre nós.
Vivi assim 22 meses, me convencendo de que vida diferente não quer dizer vida pior.
Em certos aspectos, aquela vida me parece agora despida de muitos encantos que lhe achei, mas é verdade também que, com o tempo, perdeu muitos espinhos que me molestavam.
Desataram o nós e fecharam as cortinas — que desfecho!
E este, é o ponto final.
* * *
