Cotidiano

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Era sedentária, queria fazer isso pra não se cansar tanto quando subisse as escadas de casa. Ela tava apertada e gastar quase seis reais todo dia de passagem era um luxo que ela não podia arcar.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Vai de tênis porque tem um-problema-que-não-sabe-dizer-qual-é no joelho. Passa protetor de vez em quando, mas a verdade é que ela esquece mais do que lembra. Anda por meia hora na ida com o sol da manhã na cara e anda por mais meia hora na volta com o sol do meio dia nas costas. Pensa em comprar óculos de sol, mas ainda não tem dinheiro.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Na esquina com a avenida principal, diariamente o moço lhe pergunta se quer salada de fruta. Ela gosta bastante, mas tem medo de comer e passar mal. Além do que, as coisas estão apertadas, “é melhor comprar as frutas e fazer eu mesma”, ela pensa. Nunca compra as frutas.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Cruza por um montão de gente, mas raros rostos parecem se repetir. O atraso ou adianto de um segundo ou de um minuto já muda completamente os figurantes da cena do seu cotidiano. Ela adora atravessar a ponte, pois tem um ventinho gostoso no cabelo (que ela sempre usa solto na rua, por mais que fique morrendo de calor) e a paisagem bonita do rio e do que ainda existe de manguezal.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Um rosto parece começar a se repetir. Por coincidência, eles se cruzam sempre na ponte. Ela indo, ele vindo. “Deve ser impressão”. Alguns dias depois, de novo. E de novo. E de novo. Começa a ficar ridículo os dois se cruzando quase todo dia e fingindo que não estão percebendo que perceberam a familiaridade do rosto um do outro.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. Já cruzou com ele em outras partes do trajeto. Mais perto da casa dela (e provavelmente perto do trabalho dele). Mais perto do trabalho dela (e provavelmente perto da casa dele). Ele parece ser professor de inglês. Ela ri pensando se ele também imagina “o que ela é”. Até porque pelas roupas, meio esportivas, ele jamais adivinharia. Sempre que chega perto da ponte, ela se pergunta: “será que a gente vai se cruzar de novo?” Se perguntou isso hoje…. e eles se cruzaram.

Ela vai trabalhar todo dia a pé. E começou a sorrir pra ele semana retrasada. Semana passada começou a dar bom dia. E hoje eles sorriram já à distância quando viram o outro e soltaram um “bom dia! tudo bem?”. Nenhum dos dois parou sua caminhada. Não se pode parar. É preciso trabalhar.

Ela volta pra casa todo dia a pé. Já encontrou com ele algumas vezes na volta, mas depois que a comunicação de fato começou, não o encontrou mais enquanto fazia seu caminho de retorno. Será que um dia, eles vão parar pra conversar? Será que ele também se pergunta quem é ela?

E eles? Será que algum dia caminharão juntos para algum lugar?