Nunca mais

“Vocês estão namorando?” — você me perguntou.

Fiquei um momento estática, surpresa com a sua pergunta de forma tão direta e sem arrodeios. Eu tinha acabado de chegar em casa, passei a noite com ele. Você sabia disso. Eu ia viajar em poucas horas e estava arrumando as malas. Mas você me questionou e eu realmente fiquei sem ação por um momento. Parei de dobrar as roupas e te olhei, confusa. Parecia que você queria me perguntar isso há algum tempo e, num lapso de coragem, as palavras escapuliram dos seus lábios antes que você pudesse criar algum contexto prévio que suavizasse todo turbilhão que estava dentro de você.

“Não. E nem acredito que vamos. Está sendo divertido, mas só.”

“Que pena... Que bom… Tava pensando nisso. Se tinha te perdido pra sempre ou não.”

Peraí, me perdido? Foi você quem acabou! Você que fez questão de se perder de mim mesmo quando ainda tínhamos um relacionamento. Mas apenas respondi:

“Não entendi. Há dúvida nisso? Você me perder depende do meu “estado civil”?”

“Não. Eu sei que não. É que eu me dei conta que errei. Eu cometi o maior erro da minha vida. Eu não devia ter deixado você ir embora…”

Novamente as palavras pareciam escapulir. Você sempre escondia tudo que sentia e pensava. Eu odiava. Será que você realmente fazia ideia do que você tava dizendo? Do que raios você tava falando? Que jogo doente você estava fazendo dessa vez? Fiquei calada. Você continuou…

“É sério... Vamos tentar de novo feito você tinha falado. Você mesma disse que achava que a gente tinha jeito, que a gente podia tentar de novo.”

“Eu disse isso há muito tempo atrás. Eu não penso mais dessa forma. Você tinha razão: nós somos incompatíveis. Eu não te faço feliz e nem você a mim. É melhor mesmo cada um seguir o seu caminho.”

“Não fala isso, por favor. Eu errei! Eu passei nosso relacionamento inteiro querendo fugir desses sentimentos, sem querer me entregar por completo, mas eu me entrego! Eu me rendo! Eu sou todo seu! Eu juro!”

Nessa hora eu enxerguei muito claramente do seu jogo doentio. Do quanto você fazia questão de me perder, de destruir nosso relacionamento ao pó, só pra me ver no chão implorando pra você ficar comigo e então você negar e pisar em mim. Sádico… Uma vez eu cansei e te expulsei da minha vida, você se arrastou de volta, me prometendo mil coisas e eu, boba, acreditei. Não mais…

“Agora é tarde… Me desculpa. Me desculpa mesmo. Eu estava no seu lugar há alguns meses atrás e eu sei como dói. Mas eu não vou ser fria e cruel com você como você foi comigo. Eu não vou ser grossa, eu não vou te desprezar, eu não vou te dizer as palavras cruéis que você me disse. Eu não vou rir de você pelas costas e nem vou pisar em você. Eu não vou te dar esperanças pra te manter na coleira perto de mim. Eu vou fazer a melhor coisa que eu poderia fazer por mim e por você e vou dizer simplesmente ‘não’.”

O não saiu da minha boca e parecia que levava uma mochila de 2 toneladas junto com ele. O alívio que eu sentia ao dizer aquelas palavras era maior do que o amor que um dia eu senti por você. Finalmente eu não te queria mais! Falando em amor, lá veio você, apelando mais uma vez…

“Você não me ama mais?”

“Não. Como homem, não. Amo como pessoa, como ser humano. Mas o amor que você quer de mim não existe mais aqui dentro pra te dar. E eu não quero te dar mais uma chance feito fiz da outra vez e reaprender a te amar.”

Mal sabia eu que dali algumas semanas, até o “amor de ser humano” você conseguiu destruir quando você ultrapassou todos os níveis de desrespeito comigo… Neste dia, o alívio que eu senti por não ter te aceito de volta na minha vida foi ainda maior do que o ‘não’ que eu te disse.

“Você tá mentindo. Você só tá encantada por ele e tá achando que não me ama mais. É mentira sua!”

“Talvez eu esteja mesmo encantada por ele. O que você não entende é que eu não estou mais encantada por você.”

“Mas você me amava tanto!”

Nessa hora um monte de lembranças vieram à tona e eu simplesmente deixei as palavras saírem correndo da minha boca.

“Amava. Muito! E por vezes deixei de me amar pra amar você quando você menos merecia, porque era quando você mais precisava. Eu te amei até quando eu que estava precisando ser amada. Mas uma hora as pessoas cansam. E eu cansei. Mas cansei de consciência tranquila porque eu sei que eu tentei de tudo e que eu te dei o meu melhor. Eu te dei até o que faltava em mim, só pra não faltar em você. Eu te dei até o que eu não tinha pra dar. Você não soube dar valor e eu não soube perceber isso mais cedo e acabamos prolongando algo que não tinha como dar certo. Agora nós sabemos e podemos ser livres. Você sempre me dizia do quanto se sentia preso nesse relacionamento por mais que você, definitivamente, não fosse. Sua liberdade não era algo meu pra poder te dar, mas já que era isso que você exigia de mim, eu te dava. Te dei toda a liberdade que você me pedia só pra te fazer ficar do meu lado. Só pra te convencer a não ir embora. Mesmo assim não foi suficiente, as reclamações continuavam e hoje eu entendo que não havia nada que eu podia ter feito pra te fazer ficar. Nós simplesmente não conseguíamos fazer o outro feliz.”

“É sério que eu te perdi pra sempre?”

“Felizmente. Pra nós dois.”

Terminei de arrumar as malas e fui embora pra minha viagem. Semanas depois viria o rompimento definitivo. Neste dia, outra mochila (só que de 1.000 toneladas) saiu das minhas costas quando eu fiz minha mudança e fechei a porta da casa que dividimos por 2 anos. Prometi a mim mesma que nunca mais eu iria me permitir estar num relacionamento como o nosso. Nunca mais…