Porque 13 Reasons Why é um retrato cliché e superficial da depressão

SPOILER ALERT! Se você não assistiu ainda, não leia esse texto!

Estética e produção técnica a parte, 13 Reasons Why é uma série relativamente irresponsável. Não apenas pelo fato de poder induzir o suicídio em pessoas que já possuem uma predisposição, mas, principalmente pela ideia de morte que a série mostra. Em momento algum a série explica que a vontade de morrer de Hannah. Eles apontam os fatos que levaram a menina a se matar, mas não explicaram que a vontade de se matar foi engatilhada por essa série de eventos porque Hannah tinha uma doença mental. Doença tal que é uma das mais egoístas que existe, onde a pessoa só entende a própria dor, o próprio sofrimento como se fosse maior que o dos outros. Não por falta de empatia, mas por falta de visão. A pessoa fica incapacitada de entender que as outras pessoas também sofrem e que a sua dor não é necessariamente maior que a dos outros; ela não consegue visualizar um futuro onde as coisas melhoram; ela tem a sensação de estar presa numa situação irreversível e que nunca vai sair daquele cenário; as coisas nunca vão melhorar. Elas acreditam que não há nada que possa ser feito para sair daquela situação e sentir-se bem. E é esse desespero da falta de perspectiva do futuro, desencadeado por eventos diversos, que levam ao suicídio. Na série, parece que ela decidiu de uma hora para outra, de forma quase prática.

13 Reasons Why retrata uma adolescente que teve depressão decorrente de bullying sofrido na escola. De fato, muitas das coisas que acontecem com Hanna são sérias, como os abusos sexuais, por exemplo. No entanto, outras são atitudes infantis e maldosas, infelizmente características de adolescentes, que ao mesmo tempo que devem ser discutidas para ajudar a mudar a mentalidade dos jovens, será que precisam ser estigmatizadas? Duas coisas me incomodaram mais: o fato de a série ter como premissa a culpabilidade do suicídio. A garota já começa apontando o dedo para 13 pessoas que ela considera culpadas pelo seu suicídio. Aqui vale lembrar que a maioria dessas pessoas são adolescentes maldosos que, sim, fizeram coisas terríveis, mas será que merecem carregar a culpa da morte de uma colega de classe pelo resto da vida? Com exceção de Bryce, que cometeu um crime gravíssimo com duas meninas e que ironicamente provavelmente seria o único que não sentiria remorso algum de qualquer forma, todos os outros envolvidos cometeram erros, assim como todo ser humano comete.

Alex fez uma lista nojenta categorizando as meninas da sala, o que abriu um precedente para Bryce pegar na bunda de Hannah, mas Alex não tinha como saber que isso aconteceria, ele fez o que fez por molecagem: na adolescência todo mundo está tentando se encaixar num grupo legal. Courtney espalhou boatos horríveis, fazendo de Hannah um alvo maior ainda para futuros abusos, mas o fez por medo e por falta de auto aceitação quanto à sua sexualidade. Aceitação em relação à orientação sexual é um assunto denso e delicado, difícil de lidar em qualquer idade, uma menina de 16 anos tomou uma atitude drástica e errada por não saber lidar. Ela precisa de tanta ajuda quanto Hannah. Clay, apesar de Hannah deixar claro que não merece estar lá, mas está por fazer parte da vida dela, foi culpabilizado por não ler a mente dela. Apesar de Hannah reconhecer que ele não teve culpa, é inevitável que Clay sentisse culpa. Tanto pela personalidade do personagem quanto pelas circunstâncias. Espalhar fotos comprometedoras é horrível e, sim, adolescentes precisam ser melhor educados quanto ao alcance e influência da Internet. Mas, não é isso que fazem as colunas sociais de algumas revistas? Quem se lembra da Britney Spears careca?

Esse ponto de culpabilidade vale também para própria Hannah. Eles apontam diversas vezes na série que ela escolher tirar a própria vida. Novamente, no caso da depressão não é bem assim. Não é uma escolha prática como vou cursar Comunicação ao invés de Medicina. A pessoa deprimida não consegue ver saída do próprio sofrimento, por isso comete suicídio. Não é uma coisa prática, não é uma decisão lógica.

A segunda coisa foram os pais: sim, pode-se notar ao longo da história que eles não perceberam os sinais extremamente sutis que Hannah estava mandando, como cortar o cabelo todo de repente e ter uma resistência a ir a uma festa, porém se tinha alguém que merecia saber porque Hannah se matou era seus pais. Eles são os primeiros a ter o direito de saber o que levou a própria filha a tirar a vida. Mesmo assim, são os últimos. Assistir aos pais sofrendo e tentando entender o que aconteceu é uma das partes mais dolorosas da série.

Enfim, depois de assistir a tudo e entender que ela foi um alvo de colegas maldosos e pessoas despreparadas, cheguei à conclusão de que as ações de Hannah são típicas de comportamento depressivo: culpar todo mundo a sua volta e não levar em consideração os sentimentos das pessoas que ela deixa para trás. Porém, esse egocentrismo do deprimido nunca é abordado na série de forma clara. Fica escrito nas entrelinhas. Porém, os binge-watchers, viciados em séries, hipsters que curtem uma vibe cult e críticos de Netflix não leem nas entrelinhas.

Ao mesmo tempo que é importante discutir o tema de que nossas atitudes e palavras têm consequências, impactam a vida das pessoas a nossa volta e devemos nos responsabilizar pelas nossas ações, a discussão central deveria ser a doença mental de Hannah Baker e como tratá-la.