Você é contra o aborto? Então, entra aqui

Fonte: Google Imagens

Vou tentar esclarecer algumas questões do lado de cá. De quem é a favor da legalização e descriminalização do aborto.

Esperei passar o fervo das discussões sobre aborto, que vieram após a decisão do STF, pra poder contribuir com o debate.

No calor da discussão é fácil cair na tentação de reagir no impulso pra querer defender o seu ponto de vista.

Portanto, tomei um tempo pra pensar na melhor forma de falar com quem é contra o aborto. Aliás, falar com quem é a favor de que as mulheres que abortam sejam criminalizadas. Se tem uma coisa que aprendi em 2016 é que o diálogo constrói. O diálogo é, na maioria das vezes, o melhor caminho.

Portanto, esse texto é destinado às mulheres que distribuíram várias fotos de suas gestações e ultrassons dos seus bebês se colocando contra a decisão do STF e, consequentemente, contra as mulheres que tomam tais decisões.

Quero falar com você e pra você.

Antes de qualquer coisa, é importante dizer que eu respeito sua opinião.

Você tem todo o direito de achar que isso é errado seja por uma questão religiosa, moral, ética, seja lá o que. E se isso é errado pra você, a consequência natural é que você nunca se submeta a um procedimento desses. Também acho que eu dificilmente faria um.

Mas, o que você não tem direito é de julgar / medir a vida dos outros pela sua régua, porque a discussão e a vida das mulheres que estão morrendo com procedimentos inseguros é maior que sua opinião.

Mas, sei o quanto é difícil não cair no senso comum e repetir frases que se ouviu uma vida inteira. A maternidade é tão imposta a nós, mulheres, como algo inerente ao sexo feminino que costumamos esquecer das que simplesmente optam por não reproduzir.

“Não quer ter filho? Não engravida! Simples assim” .

É sabido que nenhum método contraceptivo é 100% seguro. Fica complicado dizer que engravida quem quer, concorda?

“Só Deus tem o direito de dar e tirar a vida de alguém” .

O aborto seguro e permitido nos países desenvolvidos é feito no período em que o feto ainda não é considerado vida humana pela Medicina. Sem falar no fato de que nem todas as mulheres acreditam no mesmo Deus ou compartilham do mesmo Deus que você — ou de Deus nenhum. De novo, a sua régua na vida dos outros.

Então, independente da sua opinião, estima-se que 800 mil mulheres abortam no Brasil a cada ano.

Veja bem — você concordando ou não — as mulheres buscam formas de encerrar um projeto de gerar uma vida.

E ao fazer isso, as que tem dinheiro tem fácil acesso a clínicas clandestinas de aborto e / ou medicamentos. E, às mulheres pobres restam os procedimentos não seguros e a sorte.

Não vou entrar no mérito do que leva uma mulher a tomar uma decisão tão difícil como essa, e o que a fez chegar até ali. Porque a decisão não é sua nem minha, é da outra.

Que bom que quando você engravidou teve condições psicológicas, financeiras, emocionais e físicas de trazer uma criança ao mundo. Que bom que você tinha/tem um parceiro, ou uma família pra dividir com você as responsabilidades de ter um filho. Que bom que a sua realidade te permitiu viver essa experiência.

E mesmo que você não tivesse nada disso, você escolheu por, ainda assim, ter a criança.

Só que essa não é a realidade de todas as 104 milhões de mulheres do Brasil. Ou mesmo que fosse, certamente não é a vontade de todas as 104 milhões de mulheres.

Não tenho a intenção nem pretensão de mudar sua opinião. Mas, seria muito interessante se você pensasse um pouco mais nisso e parasse de julgar as atitudes das outras pessoas, que não lhe dizem respeito.

Os abortos continuarão acontecendo — queira você ou não. A questão é de saúde pública, não de opinião.

Vamos nós — Sociedade e Estado — continuar deixando que mulheres morram em procedimentos que não são seguros ou que elas não tem condições de pagar?

E com essas vidas, você se importa?

Escrito em dez/2016.

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