A lei de Deus e o imperativo do amor

No post da semana passada eu afirmei a ideia introdutória do Catecismo de Heidelberg para o verdadeiro conforto da vida e da morte que é encontrado em Cristo (se você não viu, leia aqui).

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Esse conforto é que não dependemos de nós mesmos, mas de Cristo e do que ele fez por nós. É essa condição que nos acompanha em todas as circunstâncias da nossa vida e nos livra dos nossos pecados e da nossa miséria.

E é sobre esses “pecados e miséria” que o catecismo trata até a pergunta 31, definindo inicialmente o que são esses pecados e miséria para depois mostrar como que nós somos salvos dessa situação. A finalidade de abrir esse tema é para que reconheçamos a grande conquista que Cristo nos deu. A nossa gratidão de certa forma aumenta quando entendemos um pouco mais sobre o grande livramento que recebemos em Cristo.

O ponto tratado pela pergunta 3 diz respeito a forma pela qual tomamos conhecimento dos nossos pecados. É a resposta é: através da lei de Deus. A definição presbiteriana e o posicionamento reformado em linhas gerais para pecado (BCW 14) é que “pecado é toda falta de conformidade com a lei de Deus”. Esse ponto é importante pois posiciona a lei de Deus enquanto um espelho que reflete aquilo que realmente somos: transgressores. Quando a lei diz que não devemos matar, mas nós odiamos ao nosso irmão em nosso coração, como Jesus diz no sermão do Monte (Mt 5), nós falhamos. Não há ninguém, a não ser Cristo, que cumpriu a lei de forma plena e satisfatória. A lei é necessária para apontar quem nós somos diante de Deus.

Mas permita-me ampliar um pouco mais aqui com a pergunta 4, pois ela questiona acerca das exigências da lei. A teologia cristã considera que quando Cristo apresenta a exigência de Deus nos mandamentos referentes a Deus e ao próximo no Evangelho de Mateus (Mt 22.37–40), ele está na verdade afirmando algo que os homens e mulheres de seu tempo já sabiam a respeito da lei de Moisés e do ensinamento dos profetas: A lei refere-se intimamente ao amor a Deus, de todo o coração, alma e entendimento, e também ao amor do nosso próximo como a nós mesmos. Existe uma profunda relação e eu até sugiro que uma relação de causa e consequência. (1) O amor de Deus por nós é provado quando Cristo morre em nosso favor sendo nós ainda pecadores (Rm 5.8), (2) nós sendo alvos desse amor, reconhecemos a Deus e amamos a Ele sobre todas as coisas, (3) esse amor é então compartilhado com o nosso próximo. O apóstolo João apresenta isso assim:

“Amados, não lhes escrevo um novo mandamento, mas um antigo, que vocês têm desde o princípio. É a mesma mensagem que ouviram antes. E, no entanto, também é um novo mandamento, cuja verdade ele demonstrou, e vocês também a demonstram. Pois a escuridão está se dissipando, e a verdadeira luz já brilha. Se alguém afirma: “Estou na luz”, mas odeia seu irmão, ainda está na escuridão. Quem ama seu irmão permanece na luz e não leva outros a tropeçar. Mas quem odeia seu irmão está na escuridão e anda na escuridão. Não sabe para onde vai, pois a escuridão o cegou” (1 Jo 2.7–11, NVT)

Em tempos de ódios de todos os tipos e de todas as cores políticas, de textões sobre poliamor e desconstruções para todos os gostos, os cristãos devem ser reconhecidos pelo Amor. Amor este que é distinto, singular e verdadeiro. Amor que não busca os seus próprios interesses e que encontra na pessoa do Cristo a sua dependência e força motriz.

Resumindo, lembramos da nossa incapacidade de amar e de se conformar a lei de Deus, olhamos o espelho e ecoamos o grito aterrorizante de Paulo: “Miserável homem que sou!”. Mas a obra de Cristo nos enche de esperança e conforto “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7.24–25), e essa gratidão nos leva ao dever de amar a Deus e também ao nosso próximo, profundamente e com todas as nossas capacidades.


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