Quem tem medo da cidade?

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Uma breve resenha e algumas ideias sobre o livro de Tiago Cavaco, Fé na Cidade.

A provocação: Fé na Cidade

Provocativo. Se eu pudesse resumir em uma palavra este pequeno livro de pouco mais de 100 páginas do Tiago Cavaco eu o faria assim. Tiago tem uma notável habilidade de provocar os seus leitores com alguns insights desconcertantes.

Tiago é português, pastor batista, roqueiro e pai de família. Talvez ele discorde da ordem dos elementos aqui (que é apenas descritiva, ok). Gente boníssima. Aliás, tive a feliz oportunidade de pegar autografada a minha edição deste livro. Ele esteve com a minha turma do 3º ano no Seminário Martin Bucer e pudemos estar juntos após o almoço. Ali ele falou da música brasileira e de algumas impressões sobre missões no contexto “pós-cristão” da Europa, foi uma conversa instigante.

O livro “Fé na Cidade” foi lançado este ano por Edições Vida Nova (São Paulo) junto com mais outros dois livros do Tiago, que são: “Seis sermões contra a preguiça”, compilado de uma série de sermões apresentados na sua igreja, e “Cuidado com o alemão”, que trata de possíveis provocações de Lutero para os nossos dias.

Cidade grande

A problemática de discussão deste livro (e também deste texto) baseia-se na seguinte constatação: A igreja em termos gerais é um agente que tem um certo “medo” da cidade e da urbanização, preferindo a vida bucólica como uma vida ideal, inocente e livre de pecados. O que é irônico nisso é que o desenvolvimento urbano está presente desde os primeiros dias da vida da igreja. O trabalho missionário dos primeiros séculos direciona-se para os grandes centros (Roma, Antioquia, Alexandria, entre outras), ainda que estes não tivessem ainda a maior concentração populacional da época (situação distinta da que vivemos hoje). A pergunta importante aqui é: O que eles viram na cidade?

A minha resposta para isso é simples. Eles viram gente e gente diferente. O pluralismo cultural-filosófico-religioso que as cidades abrigam escancara o que há de pior e de melhor nas pessoas. A fé cristã por sua vez é a melhor resposta para ambas as direções. Ela confronta o que há de pior, redimindo, e afirma o que há de melhor, ecoando. A fim de que essas duas direções encontrem na pessoa de Cristo o seu verdadeiro significado.

O texto do Tiago irá construir uma modelagem positiva da cidade e da posição que a igreja deve ter na cidade a fim de que cumpra o seu propósito. Ao final do livro ele traz alguns insights quanto a sua experiência de igreja em Portugal. Quero tratar sobre as minhas impressões quanto a modelagem proposta.

O modelo bíblico de cidade

É compreensível que inicialmente nós tenhamos um “saudosismo bucólico”, pois a cidade não é algo que é inicialmente bom no texto bíblico. Deus cria um jardim onde tudo era perfeito e nós estragamos esse jardim. Como consequência do pecado nós somos expulsos dessa experiência e partimos para construir uma morada distinta da primeira. É irônico que o primeiro bebê do mundo é o primeiro assassino e este primeiro assassino é o primeiro urbanista da cidade como Tiago aponta. Nada poderia estar pior para os entusiastas da cidade.

Entretanto, em um movimento gradual e progressivo, que acompanha a revelação de Deus e redenção do seu povo, a cidade começa a ser uma experiência melhor do que a vida nômade e independente. Os primeiros ajuntamentos oferecem proteção diante de ataques e desenvolvimento comunitário de cultura e criatividade.

Nesse sentido Jerusalém é a melhor imagem da cidade que podemos ter até então na história bíblica. É uma cidade que tem uma ética voltada para Deus e que serve ao homem à medida que serve principalmente a Deus.

Mas outra imagem de cidade surge, que é a Babilônia. A Babilônia é a antítese de Jerusalém. Uma cidade que oprime e que serve a si mesma, e não a Deus. Uma cidade que aniquila os valores dos povos que domina e que existe pela sua própria exaltação.

A palavra de Jeremias (Jr 29) em desenvolver, não uma fuga da cidade, mas, muito pelo contrário, um comprometimento com a cidade, pode no primeiro momento colocar em parafuso as nossas cabeças. Entretanto a sua proposta faz parte da ideia de Deus para a cidade. A cidade precisa ser reconstruída pelos seus, em seu interior, tratando do problema que existe no coração dos homens. Tiago Cavaco diz: “Não há cidade que viva inteiramente fora do coração dos homens”.

O modelo bíblico da cidade traz o caminho que Deus faz para a salvação da própria humanidade. O início é o jardim, mas o fim é a cidade. O propósito da cidade no “momento Babilônia” é de se afastar de Deus, mas o propósito da cidade no “momento Jerusalém” é ter comunhão com Deus.

Esse modelo apresenta a cidade não como vilã nem como mocinha da história, mas enquanto lugar que é afetado por homens e mulheres que ou se submetem a Deus ou se submetem a si próprios. A direção da sua submissão irá dar o tom da cidade que eles habitam e a esperança que eles têm com Deus e com as pessoas ao seu redor.

O modelo bíblico de igreja na cidade

O sentido do texto vai na direção de responder qual é o papel da igreja (congregação) na cidade. Para Tiago o papel da igreja está em representar o amor para a cidade. Essa cidade por sua vez tem uma visão distorcida sobre o que é amor. Para muitos na cidade o amor é um assunto “fofo”, enquanto para a bíblia e para a igreja é um assunto que trata sobre “força” pois, “o amor não acontece por ser natural. O amor acontece porque é necessário. A existência do amor numa igreja não é resultado de essa igreja ser boa, mas o resultado dessa igreja ser má […] O amor não é uma fofura em que nos deitamos — o amor é uma força que transpiramos”.

O ponto principal do amor está fundamentado na afirmação bíblica de que “Deus é amor”. Deus é amor, mas nós não. Nesse sentido a igreja inclusive não é uma comunidade que naturalmente expressa o amor, mas sim um grupo de pessoas que poderia naturalmente odiar, como a cidade o faz, mas que decide amar pois é alcançada pelo amor demonstrado por Deus em Jesus. Somente dessa forma que o amor é possível. Tiago diz “Uma igreja que verdadeiramente ame faz sempre uma inesperada declaração de derrota — foi vencida pelo Espírito Santo. É um paradoxo — é preciso que Deus ganhe e que nós percamos para realmente podermos amar os outros”.

Nesse reconhecimento de derrota está a constatação de nossas fraquezas e incapacidades para amar e nisso reside uma direção paradoxal: “somos chamados a amar como Deus porque odiamos como os homens odeiam”.


Diante do problema do medo da cidade e da falsa expectativa de salvação fora da cidade devemos caminhar para o amor, pois é no amor que a igreja encontra o seu senso de propósito na cidade.

A igreja não existe na cidade para si mesma mas para amar a Deus e ao próximo. Isso é extremamente confrontador para a igreja dos nossos dias. Estas refletem o que seus membros são: egoístas e orgulhosos. Muito mais voltados a si mesmos do que aos outros. Muito mais interessados em se promover do que promover aos outros. Pessoas que vivem mais o momento Babilônia.

Mas nós precisamos de mais Jerusalém. Nós precisamos voltar-se para a escola do amor de Deus, a qual nos lembra na primeira lição de que somos alvos deste amor e que na segunda lição nos lembra que a história não para por aí e que temos uma tarefa para com as cidades que é representar a elas este amor.

Por fim, dentre todas as cidades possíveis a que interessa mesmo é a última (ou porque não a primeira), a Jerusalém de Deus. Cidade onde o Deus-trino reina e onde toda a fé e a esperança das antigas cidades se materializam em amor.

Texto escrito para o blog Cristo Urbano em 23 de abril de 2017 e disponível neste link.
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