A espetacularização do arranhão.

Sempre tive tudo na vida. Quando criança, meus pais nunca me deixaram faltar nada. Tudo que eu almejava, de certa forma, acabei conseguindo. Quis sair de casa. Saí. Quis ser um redator de grandes agências de publicidade. Fui. Quis morar no exterior. Morei.

Nada disso foi de graça. Quando eu falei que seria publicitário, ainda lá naquele agropecuário cerrado, muitos me chamaram de louco. Que eu deveria fazer medicina. Que as minhas notas seriam suficientes pra eu passar em qualquer universidade que eu quisesse. E seriam mesmo. Mas eu não queria aquilo pra minha vida.

Trabalhei. Trabalhei mais. Trabalhei mais um pouco. E quando vi, as coisas começaram a acontecer. Saí de Trindade, fui pra Goiânia e quando me vi, estava morando na minha grande maçã nova-iorquina. De volta a São Paulo, ganho um oscar da publicidade, trabalho na agência que falei que queria trabalhar e depois fiz um comercial visto em mais de 90 países. Tenho meu próprio apartamento, amigos que me amam e uma família que me apoia incondicionalmente.

Pode parecer um texto sobre ego. Não é.

É um texto sobre como é engraçado que, mesmo com tanto, nos apegamos àquilo que não temos. Numa sessão de terapia, minha psicóloga afirmou com todas as letras:

Não que isso seja um problema, mas ter conseguido tudo que você sempre almejou, fez de você uma pessoa cujas pequenas frustrações se tornem grandes frustrações.

Pequenices ganham proporções épicas pela quantidade de atenção que você dá àquilo. E é muito comum ficarmos dando atenção a arranhões. A arranhões do dia a dia. Que todo mundo sofre pelo simples movimento de viver. Você olha aquela ferida. Fala dela. Posta sobre ela. Comenta. Fala. Espetaculariza.

E precisava de tanto? Precisava de tanta auto-afirmação? De ser uma personagem que monetiza até um arranhão em forma de likes?

Não precisava.

A vida é o agora. E o agora que tenho ao meu redor é maravilhoso. Preciso lembrar e ser grato por quem e o que está ao meu lado hoje. Não tenho tempo a perder com o que não está aqui mais ou com o que nunca foi meu. E esse meu não tem nada de pronome possessivo.

E cara, olha esse agora de agora.

Preciso me lembrar mais vezes de como eu sou um cara incrível e sortudo.

Pode parecer um texto sobre ego. Não é.
Ou talvez seja e foda-se.