Carta aberta ao boy da academia

Metido a Cronista
Aug 7, 2018 · 4 min read
Photo by Victor Freitas on Unsplash

Você chegou e eu descobri a paixão. Foi de repente, mexeu no coração. Quando te vi pela primeira vez, virei a própria Wanessa Camargo. Com seu boné meio de lado e calça de moletom. Regata apertada valorizando o contorno do ombro. Vou tentar escrever essa crônica sem que ela pareça um conto erótico. Desculpe, leitor. Mas para se configurar como conto erótico, há a necessidade de alguma ação. E este texto não passa da minha idealização barata por um cara cujo nome nem sei.

Já te procurei no Instagram. Usei todas minhas técnicas de stalkeamento e nenhuma funcionou. Check-ins públicos no Facebook? Nada. Fotos no Instagram com a academia como localização? Nada. Sua ficha esquecida em algum aparelho? Nada. Nada. Nada. E justo eu, que sou um Sherlock Holmes de achar gente com o mínimo de informações possível, sigo aqui na escuridão do seu anonimato.

Mas você, caro boy da academia, continua uma incógnita que me tira o sono. E como tira. A verdade é que tira tanto que acordo às 6h só para ir ao seu encontro. Quando digo: "ah, é meu único horário livre, uma hora você se acostuma, blá blá blá Whiskas sachê", é tudo uma mentira. Sim, sou uma farsa. Visto minha melhor cara de pau e saio por aí proferindo esse impropério. Mas tudo bem: toda desculpa é válida se for para ver você soltando leves gemidos entre uma série e outra. Meu sonho que esses gemidos fossem por outra coisa. Ai, desculpe, leitor. Tinha esquecido que isso aqui não é um conto erótico.

Caro boy da academia, provavelmente você não é meu leitor. Mas vai que é amigo de alguém que seja. Alguém que saiba que você também frequenta a BodyTech toda manhã. O problema é que fico tão atarantado (aliás, obrigado pela oportunidade de usar a palavra atarantado) quando te vejo que a única característica sua que consigo lembrar é como você é lindo. Nem sei dizer aqui se você tem 1,70 ou se tem alguma tatuagem. Se é parecido com algum artista ou se fica com os fones de ouvido ligados.

Mas sabe, boy da academia, você já está começando a me atrapalhar. Já não rendo como antes. O que eu treinava em uma hora, agora me consome quase duas. Dia desses, caí da esteira por te observar de longe. Todo exercício virou um teste de concentração. Supinos, elevações e flexões são feitos sem amplitude. Tudo meio chocho, capenga, manco, frágil e inconsistente. Quando você vai para o agachamento, é meu momento favorito do dia. E entre um exercício e outro, faço muitos malabarismos para ficar te vendo de canto de olho pelos mil espelhos espalhados pelo local. Aliás, falando em espelhos, conheço um lugar que tem uns no teto. Vamos? Desculpe, leitor. Esqueci de novo que isso aqui não é um conto erótico.

Você desperta meu lado mais pedreiro. A vontade de assoviar é quase incontrolável. Mas fico na minha. Penso e repenso cada passo que dou. Tudo com a intenção de você me notar. Mas nenhum sucesso até então. Parei de usar o preto básico de todo treino para ir com roupas mais coloridas, mais chamativas. Foi tão efetivo quanto eu te stalkeando nas redes sociais.

A verdade é que minha motivação deixou de ser a autoestima. Agora estimo sua presença fora do ambiente fitness da sala de musculação. Quero te levar ao cinema e para jantar. Te apresentar para minha mãe e ela ficar impressionada como eu fiquei na primeira vez que te vi. Quero correr no Ibirapuera e adotar um cachorro com menos de dois meses de namoro para mostrar como somos felizes no Instagram. Quero tudo. E só tenho o nada.

Sigo na esperança de descobrir se você se chama Alfredo ou Bartolomeu. Se é paulistano, mineiro ou do Recife. Se tem mais ou menos a minha idade. Com o que trabalha. Se é engenheiro, designer ou motorista de Uber. Esperança se tornou um exercício. Quatro séries de doze repetições do início ao fim do treino.

Prezado boy da academia, caso esse texto chegue até você, saiba que tem livre acesso ao diálogo com minha pessoa. Que você tem um admirador secreto. Agora não tão mais secreto assim. Mas tudo bem. Sigo aqui te admirando de longe até você estar perto. Bem perto. Desculpe, leitor. Está difícil isso aqui não se tornar um conto erótico.

Por isso, fico por aqui.
Não quero texto meu parando no MundoMais.com.br.

Metido a Cronista

Written by

por João Freire http://www.facebook.com/metidoacronista

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