Por que ‘cobrir’ a tragédia da Chape foi a maior aula de jornalismo — e de solidariedade — que alguém poderia ter

6h: No Whatsapp, a notícia que mais me comoveu desde que comecei o curso de jornalismo, há quase três anos e meio: o avião da Chapecoense caiu.

A tristeza tomou conta. Quase não consegui sair da cama.

Mas era hora de levantar. No dia anterior, ficou decidido que eu trabalharia pela manhã, e não à tarde, como de costume.

Não chamo de previsão. Mas as matérias sobre Cruzeiro, Atlético, final da Copa do Brasil e especial dos 50 anos do título da Taça Brasil caíram por terra. O dia era da Chape. O mundo era da Chape.

Vídeo mostra o momento exato em que o avião da Chape desaparece do radar

Gente da Política, do Gerais, da Cultura, das redes sociais, de tudo quanto é editoria se mobilizou pra chegar mais cedo na redação e nos ajudar na cobertura MALUCA com quase 100 matérias feita pelo Superesportes.


PEC 55, votação sobre aborto, bombas da PM contra manifestantes em Brasília, nada disso. O dia era da Chape. O mundo era da Chape. A capa era da Chape.

A versão impressa do Superesportes até seria “promovida” na edição do dia seguinte do jornal Estado de Minas. Dona de algumas páginas no interior da publicação, a editoria de esportes só é “presenteada” com a capa em momentos considerados “especiais”. Foi o pior dos “presentes”.

Nos grupos de Whatsapp, muita gente sugerindo pautas pra desenvolver ao longo do dia. E, claro, isso incluía pensar em “abordagens diferentes” para o impresso.

Capa do jornal Estado de Minas desta quarta-feira, um dia após a tragédia

No online, a loucura de todo dia multiplicada por 10, 20, 100. Informação precisa ou busca por clique? As duas coisas? Quais os limites? O que o jornalismo não pode fazer?

Já no início da manhã, o site estampava a capa com uma manchete e várias matérias sobre a Chapecoense no chamado “Destaque Superior”. É um espaço especial, utilizado apenas em momentos jornalisticamente relevantes.

A primeira decisão editorial foi tomada logo cedo. Num site voltado a times mineiros, a prioridade era dar visibilidade à tragédia que atingiu catarinenses na véspera da decisão da Copa do Brasil.

Quais critérios de noticiabilidade foram usados, Galtung e Ruge? Proximidade, amplitude, caráter inesperado? Número de cliques nas matérias? Um misto de tudo isso, talvez. Feeling de jornalista, eu arriscaria dizer. Ainda acredito nesse tipo de coisa.


Às 9h30, cheguei numa redação mais cheia e movimentada que o costume. Estávamos longe do local do acidente, mas o “jornal dos mineiros” só falava sobre Chapecó.

A capa do site já estava maior. Ao invés de quatro notícias em destaque, sete. Força jornalística, humana e dos cliques também. O dia do luto também era o dia de uma das maiores audiências do Superesportes. O pior dos “presentes”.

A primeira matéria feita tinha gosto melancólico. Quem NÃO viajou com a delegação da Chape e, consequentemente, escapou da tragédia?

“Rezem por meus companheiros, por favor”, Martinuccio, atacante da Chape, que não viajou à Colômbia

Sobe audiência. Aumentam as matérias da Chape na capa: de sete para DEZ. No meu pouco tempo de Superesportes, isso só havia acontecido na Olimpíada do Rio.


Mas qual o limite?

Sobe matéria de agência, troca capa, muda título e foto pras redes sociais, acha foto, corta foto, sugere pauta, Twitter enlouquece, escreve matéria, diagrama matéria, procura vídeo, acha vídeo. Será que pode usar essa palavra? O texto tá bom? Não tem tempo de reler. Vai assim.

Escreve-publica-corrige-redes sociais-capa do site. O ciclo acelerado, mecânico. Máquinas de notícias. Máquinas numa situação dessas?

“Vou publicar um vídeo dos jogadores no avião! Vai dar muita audiência” “Nossa, tem imagens do avião destruído!” 
“Neto está vivo, mas com um corte grande na cabeça. Temos foto”

Publicamos a foto:

Fomos sutilmente criticados:

Neto estava vivo, chegando ao hospital. Tudo bem então, né? Por outro lado, seria desrespeito à família postar a foto?


Morreu ou não?

12h, 12h30, 13h, 14h, impossível sair pra almoçar. Nova decisão do jornal: o repórter que estava em Porto Alegre para a decisão da Copa do Brasil (que foi adiada) partiria para Chapecó.

Nesse meio tempo, a parte mais difícil: Danilo, o goleiro santo, o ídolo, o responsável pela classificação à final da Sul-Americana, está vivo ou morto?

Danilo fez esse milagre no último lance do jogo contra o San Lorenzo, o time do Papa. A narração emocionada — e emocionante- é do brilhante Deva Pascovicci, também vítima da tragédia.

Toda hora uma informação diferente. Confiar em quem? Jornalistas no Twitter? Meios de comunicação colombianos? Informações de profissionais da imprensa no Whatsapp? TVs locais?

Até a Cruz Vermelha, fonte oficial, parecia não saber o que se passava. Cada boletim trazia uma informação diferente. Foi resgatado com vida, telefonou para a família, perdeu muito sangue em cirurgia. Morreu ou não morreu? Se sofremos nós, a mãe de Danilo sofreu muito mais. E como sofreu.

“O coração está despedaçado. Estou sofrendo muito, é muito difícil, Eu jamais achei que eu fosse passar por esse momento. Eu não consegui assimilar ainda. O desespero está muito grande. Não está sendo fácil porque é complicado. A gente não tem notícias concretas. Cada um passa uma notícia diferente a cada minuto”, mãe de Danilo ao SporTV

A velocidade dos boatos no Twitter obrigava a produção de matérias. Faz matéria dizendo que morreu. Apaga matéria, pois não se sabe se morreu. Refaz, morreu mesmo. Pacientemente, esperamos pela confirmação e não passamos por essa situação. Mas é, morreu.


Aprender a voar

Se a cobertura brasileira da tragédia estava um tanto quanto controversa, com situações que ficavam no limite entre o bom senso e o desrespeitoso, na Colômbia a situação era complicada do mesmo jeito.

Ansioso pra saber notícias de Danilo, comecei a ver a programação do canal de TV TeleMedellín. Me deparo com imagens dos jogadores da Chape no avião. Ao fundo, a trilha era conhecida. Learn to Fly, do Foo Fighters. Isso mesmo. Colocaram o instrumental da música “Aprender a voar” como BG numa situação de tragédia aérea.


Pauta feliz num momento desses?

Guto Ferreira se lamentando, jornalistas e ex-jogadores de América e Cruzeiro mortos. Audiência, críticas, sugestões de pautas. A loucura seguia.

Há dois meses, começamos a pensar na produção de um especial sobre a Chapecoense. A ideia, basicamente, era entender como a equipe nova, “pequena”, com orçamento menor em relação aos principais clubes brasileiros e sediada em uma cidade do interior com apenas 200 mil habitantes conseguia peitar gigantes do futebol nacional, ficar na Série A e ainda brigar por um título sul-americano. A pauta mudou.

Mas ainda precisávamos exaltar a ChapeTerror, das zoeiras e das goleadas improváveis. O horror dos grandes. O time de Apodeus, Camito e Ananiesta.

A lista de dez motivos para a Chape ser querida por todo mundo parecia um pouco controversa. Como fazer uma matéria feliz em meio a tudo isso? Pois é. Fizemos. Oportunismo? Ou uma homenagem justa?

Como dizer não a esse rostinho?

Máquinas não

Um pouco depois das 14h, chegam mais dois jornalistas à parte da redação destinada ao Superesportes. Os que já estavam por lá seguiam o trabalho em ritmo maquinal. Os que acabavam de entrar, no entanto, trouxeram de volta a empatia — que sempre esteve presente, mas parecia adormecida, anestesiada pela quantidade de coisas a fazer.

“Eu não conseguiria entrevistar ninguém da família dos jogadores. Não dá. Tô no jornalismo esportivo por isso”

Em meio a tudo isso, percebemos o tanto que o futebol pode sim ser encarado como religião.

Inúmeras manifestações de apoio. Coisas impensáveis acontecendo por todo canto. A aula de jornalismo, então, deu lugar à aula de solidariedade. Pois é, o esporte “da violência”, o esporte “do fanatismo doente”, o esporte “dos milionários” foi mais que esporte nessa terça. E é muito mais que esporte todos os dias.


A maior aula de jornalismo que você respeita

Longe da sala de aula, mas nem tanto. Claro que a Universidade deu base a boa parte das decisões e dos processos adotados pelos jornalistas na fervorosa redação.

Checagem, lide, pirâmide invertida, escrita com frases curtas e diretas, critérios de noticiabilidade, estratégias para redes sociais. Tudo fez parte da cobertura. Tudo foi colocado em prática — e questionado, criticado, problematizado.

O dia terminou com VINTE E DUAS matérias da Chape na capa, além de outras dez estampadas numa seção especial. O clube catarinense ganhou, ainda, um destaque privilegiado no “cabeçalho” do site. Mais do que isso, o dia terminou com um movimento mundial de solidariedade.

O dia é da Chape. O mundo é da Chape.