Um dia de um ex-gigante na quarta divisão romena

João Vítor Roberge
Oct 6, 2015 · 10 min read
Torcida do FC Arges empurra o time numa manhã de sábado, contra um adversário muito fraco, na quarta divisão romena

A pequena estação Bucareste Basarab é a menos importante do sistema ferroviário em Bucareste — capital da Romênia — atrás da estação do aeroporto e da Gara de Nord. Eram 7h20 da manhã naquele 3 de outubro, fazia 9°C, e cinco jovens, vestidos de roxo, faziam piadas, se divertiam, acordados demais para aquela manhã gelada de sábado. Vestiam cachecóis, carregavam sacolas cheias de camisetas roxas, e um mastro de bandeira. Max, Herbi, Paul, Alex, e Andrei já compartilhavam algumas cervejas ao amanhecer. Max, um jovem já passado dos 25 anos, havia virado a noite em Lipscani, o centro histórico de Bucareste, que possui os melhores bares e festas da cidade. Estes esperavam o trem para Pitesti, a capital do distrito de Arges, 115km a noroeste da capital romena. Às 10h30, estes amigos estariam na arquibancadas do velho estádio Strand partida entre FC Arges e DLR Pitesti, válida pela grandiosa quarta divisão romena.

O Fotbal Club Arges Pitesti foi fundado em 1953 sob o nome “Dinamo Pitesti”, na cor vermelha, como um “satélite” do Dinamo Bucareste. Em 1966, conseguiu a “independência”. Mudou o nome para FC Arges e as cores para roxo e branco. Foi também um dos grandes clubes da Romênia, um dos poucos que conseguiu superar a dupla Steaua (clube do exército) e Dinamo (clube da polícia) durante o Comunismo, um período em que ambos foram extremamente beneficiados. Em 42 anos do regime, apenas três times fora do eixo Steaua-Dinamo conseguiram ser campeões nestes 42 anos: UTA Arad (6), Universitatea Craiova (3) e o Arges, campeão em 1971–72 e 1978–79. Os alvirroxos ainda foram vice-campeões em 1967–68 e 1977–78, e chegaram à final da Copa da Romênia de 1964–65, tendo sido derrotados pelo Universitatea Cluj. Em 2015–16, o Arges disputa quarta divisão romena, pela segunda temporada consecutiva, na esperança de voltar ao topo o mais rápido possível.

Na temporada passada: O Arges voltou com estilo ao futebol e o apoio da torcida, que compareceu em peso em partidas da quarta divisão (foto: site oficial FC Arges)

Os amigos subiram no trem com todas as suas sacolas, o mastro de bandeira, passaram pelo estreito corredor do vagão e descobriram que não havia mais lugares disponíveis. Para assistir ao Arges na quarta divisão, seria necessário ficar em pé, até que o trem esvaziasse à medida que fosse parando em cada uma das mais de dez estações do percurso. De carro, pela estrada, é possível sair de Bucareste e chegar a Pitesti em 1h30, até menos. Naquele trem da categoria Regio (a mais básica possível), os cinco amigos estavam fazendo uma viagem de 2h30, parando em todas as estações possíveis, de pequenas cidades e vilarejos, enquanto a paisagem pouco mudava. Uma planície vasta, imensa, num verde desbotado. Nas paradas, havia casas, casebres, cachorros, gatos, pequeninas estações. O quinteto não se importava. Se acomodou no corredor, bebia as cervejas, ria, falava do jogo do dia. De vez em quando, pessoas mais velhas, ao perceberem que se tratavam de torcedores do FC Arges, paravam para perguntar: “O Arges ainda existe?” “Vocês torcem pro Arges? Tão indo pro jogo nesse horário?”, ou comentar “Nossa, eu lembro do Arges dos anos 60 e 70, com Dobrin, lotava estádio. Agora vocês tão aí…”

Além de ter sido um dos poucos times que batiam de frente com a dupla Steaua-Dinamo e conseguiam títulos, o Arges tem um retrospecto importante nas competições continentais. Foi o primeiro time romeno a derrotar o gigante Real Madrid. Em 25 de outubro de 1972, no primeiro jogo da segunda fase da Copa Europeia (atual Champions League), o Arges venceu por 2x1, uma façanha lembrada até hoje em Pitesti e em toda a Romênia, maior do que a eliminação que viria no jogo da volta, na derrota por 3x1 em Madrid. Na outra participação, o Arges eliminou o AEK Atenas, e foi eliminado mais uma vez na segunda fase, tendo o azar de enfrentar o Nottingham Forest, que se seria bicampeão europeu meses depois. Na Copa da UEFA (atual Liga Europa) de 1978–79, após eliminar o Panathinaikos com vitórias por 3x0 em Pitesti e 2x1 na Grécia, venceu o Valencia em casa, mas foi eliminado na Espanha, perdendo por 5x2. O Arges participou de duas Copas Europeias e cinco Copas da UEFA. Foram 11 vitórias, 4 empates, 11 derrotas, 42 gols marcados e 44 sofridos.

Eram dez para as onze da manhã quando o trem parou na estação de Pitesti, cidade com 150 mil habitantes, 13ª maior cidade da Romênia, sede da Dacia, marca romena de veículos que hoje é parte da Renault. Numa caminhada que durou cerca de 20 minutos, Max, Herbi, Paul, Alex, e Andrei estavam agora acompanhados de Caius, um torcedor “roxo” do Arges, que apesar de estar na faixa dos 30 anos, já aparenta uns 40. Em todas as partidas do clube fora de casa, ele estava presente, algumas vezes como o único torcedor visitante. Com o bigode no rosto, roupas velhas e um cachecol antigo do clube no pescoço, parecia ainda com um pouco de sono, até um pouco nervoso pelo jogo. O agora sexteto parou numa mercearia para comprar pão, mortadela, e mais cerveja, para almoçar antes da partida, que começaria às 11h45. Após o lanche, chegaram ao estádio Strand, um velho estádio de várzea fundado na década de 40 localizado no parque homônimo, às margens do rio Arges. Cercado por árvores, o primeiro estádio tem apenas uma arquibancada muito modesta, com capacidade para 2,5 mil pessoas.

Depois do auge nos anos 60 e 70, o Arges decaiu. Foi rebaixado em 1991–92, só voltou à primeira divisão após vencer a Liga II de 1994–95. Chegou a retornar à Copa da UEFA, em 1998–99, mas assim que começou o Século XXI, as coisas começaram a piorar cada vez mais. Em 2006–07, mais um rebaixamento, o terceiro da história. As “águias roxas” voltaram à elite imediatamente, mas em 2008–09, após chegarem a um honroso 10º lugar pelas dificuldades que o clube enfrentava, o dono do Arges, foi condenado a prisão por tentativa de suborno de árbitros para ter arbitragem favorável. Assim, mesmo na 10ª colocação, o Arges foi rebaixado mais uma vez, para nunca mais voltar.

Foto: João Vítor Roberge

Foram mais quatro anos de sofrimento na Liga II até que o time fosse à falência e extinto ao final da temporada 2012–13. Não sobrou nada do clube de Penescu além dos torcedores, que, sozinhos, criaram em 2014 um novo projeto para refundar o clube, sob outra razão social, outra administração e com poder de decisão descentralizado, através de conselhos deliberativos formados por torcedores e apoio de ex-jogadores que são ídolos do Arges Este é o Arges da quarta divisão romena, oficialmente sem ligações com o time fundado em 1953, a não ser pelo apoio dos ídolos. Com patrocínios importantes como a Decathlon, loja online e uma iniciativa profissional na internet, o FC Arges vai na contramão do falido futebol romeno em queda livre na mãos de empresários cuja fortuna e dívidas significam fortuna e dívidas dos clubes.O time não tem o apoio das autoridades locais nem para jogar no Estádio Nicolae Dobrin (antigo 1º de maio), onde o Arges jogava antes da extinção. Pelo contrário, as autoridades criaram novos times na tentativa de colocar Pitesti na primeira divisão com o SCM Pitesti e depois com o Academica Arges.

Havia cerca de 300 torcedores naquela partida contra o pequeno DLR Pitesti, um time de uma fábrica local de peças de automóveis. Um bom público numa partida em que um dos times buscava o acesso e o outro era um time praticamente amador. Em jogos decisivos, contra os principais adversários, cerca de 2 mil pessoas comparecem, um público da atual primeira divisão. Nas arquibancadas, algumas famílias, amigos, crianças, todos ainda com uma cara de sono, mas que fizeram o esforço de apoiar o Arges em mais um passo rumo à terceira divisão. Quem não tinha sono era a turma que veio de Bucareste, que faz parte da torcida organizada do Arges e agora havia se encontrado com outros integrantes para começar a cantar. Assim que o árbitro apitou o início da partida, os cerca de 20 torcedores organizados acenderam sinalizadores com as cores da bandeira romena e cantaram. Os outros ainda tentavam abrir completamente os olhos naquele fim de manhã, cuja temperatura já havia subido para 25°C.

Logo aos cinco minutos, o placar foi aberto, de pênalti, com o meia Giurgea. O goleiro do DLR, que aparentava ter menos de 16 anos, mal pulava na bola. Aos 15, o meia Alin Lipa ampliou. O jogo era fácil, monótono. O DLR mal conseguia passar do meio-campo, enquanto o novo Arges tinha jogadas ensaiadas, passes de primeira e alguma tática. Aos 34 e aos 42, mais dois pênaltis, que foram convertidos. Sim. Ao fim do primeiro tempo, o placar era 4x0. E entre pausas para descanso, aqueles 20 loucos torcedores seguiam cantando:

Foto: João Vítor Roberge

-Suntem toti uniti pentru Pitesti — Estamos todos unidos por Pitesti
Sunteti alb-violeti, suntem anti-Bucuresti — Somos alvirroxos somos anti-Bucareste
Vulturi in tribuna, vulturi in teren — Águias na arquibancada, águias no campo
Suntem peste tot , de nimic nu ne temem! — Estamos acima de tudo, e de nada nós tememos

-Astazi merg pe stadion — Hoje eu vou pro estádio
Si-am sa cant pan’ am sa mor — E vou cantar até morrer
Argesu’ echipa mea, lupta si vei castiga! — O Arges é o meu time, luta e vai ganhar
Respecta Istoria! — Respeite a história

-Nicolae Dobrin, Nicolae Dobrin
Sa stii ca noi te iubim
— Saiba que nós te amamos

Nicolae Dobrin, já citado aqui algumas vezes, foi um dos melhores jogadores que a Romênia já teve. Estreou na primeira divisão ainda aos 14 anos, pelo Arges, onde jogou de 1959 a 1981, antes de ter uma rápida passagem pelo CS Târgoviste e voltar em 1982 para o Arges e se aposentar no ano seguinte, aos 36 anos. Boêmio, fumante, caminhava pelo campo e quando pegava na bola, não havia quem a tirasse dele. Com controle de bola e drible impecáveis, marcou na vitória contra o Real Madrid e despertou o interesse do próprio Santiago Bernabéu para levá-lo à Espanha. Devido às dificuldades que o comunismo romeno impusera, a transferência nunca se concretizou. A vida extracampo desregrada o impediu de jogar a Copa do Mundo de 1970, quando se desentendeu com o técnico Angelo Niculescu e não entrou em campo, mesmo sendo convocado. Faleceu em aos 60 anos, em 26 de outubro de 2007 após complicações de um câncer de pulmão.

No segundo tempo, o DLR já estava completamente abatido. A partida parecia um treino. Galvão Bueno diria que era “uma grande seleção contra um time de meninos”. A cada novo gol do Arges, aplausos da torcida, e mais cantos dos organizados. Era só esperar o final do jogo e curtir os gols do segundo tempo, alguns deles muito bonitos. Todos os três jogadores que entraram no segundo tempo fizeram gols. O placar foi nada menos que 10x0 para o Arges Pitesti. Ao final do jogo, os jogadores foram cumprimentar aquele grupo de uns 20 malucos que cantaram do primeiro ao décimo gol, e que continuaram cantando. Ao final, tentavam vender os artigos oficiais do clube para aqueles outros torcedores mais quietos, entediados com o jogo fácil e que fizeram um esforço extra para acordar antes do meio-dia. O velho estádio Strand se esvaziava, e mais uma rodada da quarta divisão romena terminava para o Arges. Para Max, Herbi, Paul, Alex e Andrei, o quinteto que saiu de Bucareste, teve viagem fora de campo e passeio dentro. Alex se despediu do resto do grupo, precisava voltar cedo para Bucareste. Os outros foram comemorar com mais cerveja, no bar.

A quarta divisão romena é, na verdade, dividida em distritos. Cada um dos 40 distritos romenos e a capital Bucareste têm a sua própria liga da quarta divisão. Ou seja, o Arges disputa a Liga IV apenas com clubes do distrito de Arges. São 12 clubes que se enfrentam em turno e returno. Apenas o campeão se classifica para um play-off contra o campeão do distrito de Dambovita, e o vencedor sobe à Liga III, que é dividida regionalmente. Com a vitória, o Arges chegou à quarta posição, com 13 pontos, 3 atrás do líder, o time B do Mioveni (o time principal disputa a segunda divisão), Victoria Buzoesti e Gloria Berevoiesti. Faltam 18 partidas para o FC Arges subir para a terceira divisão da Romênia, e reconquistar os tempos de glória que teve um dia, nos tempos de Dobrin.

FC Arges 10x0 DLR Pitesti — Estádio Strand, Pitesti, distrito de Arges
6ª rodada da Liga IV — Arges

FC Arges: Vlăsceanu (Stanciu-int); Ciocârlan, Gherase, Toader, Popa; Giurgea (Barbu-int), Taudor, Lipa, Pătrănoiu; E. Călin (Neguţ 9'-2ºt), Sanda (Burcea 9'-2ºt)
Técnico: Vali Năstase

Gols: Giurgea (5'-1ºt), Lipa (15'-1ºt-pen e 23'-2ºt), Pătrănoiu (34'-1ºt-pen), E. Călin (42'-2ºt), Barbu (3', 8', 35'-2ºt), Neguţ (21-’2ºt), Burcea (25'-2ºt).

João Vítor Roberge

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jornalista, craiovano e digiescolhido