marcas de uso

quando eu olho pra minha estante de vez em quando e vejo alguns livros com lasquinhas, dobrinhas ou imperfeições, penso: já fiquei triste por causa dessas marcas em algum momento no passado.

recentemente, ganhei do meu namorado uma edição muito bonita de Moby Dick, de Herman Melville, um livro que eu sempre quis ler durante a vida toda — e agora estou finalmente lendo. um dia deixei ele em casa, bem na minha cabeceira já atulhada de livros; ia levar comigo David Copperfield de Charles Dickens pra ler no caminho para o trabalho, mas resolvi de última hora trocar por um livro mais leve, minha coluna já começava a reclamar das expedições com meus calhamaços na bolsa. deixei David em cima de Moby e parti. quando voltei, tirei um de cima do outro e abri o livro, feliz por poder ter chegado em casa cedo e poder ler mais; li umas 50 páginas, uma das leituras mais gostosas dos últimos tempos. fechei o livro e reparei uma marquinha que mais parecia um arranhão na capa do livro, bem em cima do M de Moby. olhei e pensei: poxa, que tristeza, e fiquei conjecturando sobre como tinha acontecido aquele troço.


Moby Dick / https://br.pinterest.com/pin/425097652301084637/

uns dias depois eu passei a fazer o que eu sempre faço com meus livros quando eles se acidentam: relacionar as marquinhas com alguma coisa que justifique aquilo estar lá. lembro de livros molhados, com orelhas, mofados. e lembro de sempre ficar um pouco decepcionado comigo mesmo por pensar que essas coisas poderiam ter sido evitadas — especialmente o mofo, detesto esses pontinhos.

Moby Dick, a baleia, se você bem se lembra — ou caso você não saiba, é terrivelmente desfigurada devido aos encontros com o capitão Ahab, a força monomaníaca por trás da narrativa de Melville. então pensei: nada mais justo do que um pequeno arranhão no meu livro. fico tentando imaginar como uma marca pode se imprimir tanto, pode acrescentar tanto. gostava dos meus [acho que ainda gosto] dos meus livros perfeitos; mas já penso que assim eles contam Histórias dentro das histórias.

David Copperfield é um romance de formação: acompanhamos o protagonista de seu nascimento até a idade adulta; ele ficava em um lugar da estante que tomava bastante sol pela manhã. resultado: lombada amarelada. gosto de pensar que o amarelo, mais especificamente o “processo” de amarelamento da lombada, é o processo de amadurecimento da personagem.

existem mais uns tantos livros na minha coleção que posso passar horas falando sobre como ganharam aquelas marquinhas e contar toda uma história por traz de cada uma delas.

então vejo essas coisas e sei que as marcas estarão lá, indiscutivelmente. podem ser coisas mínimas, mas estarão. e não vai ser por causa delas que vou deixar de amar meus livros.