o sopro

ele estava andando bem acima da cabeça de todo mundo, na beirada de um telhado. e olhava pra baixo de vez em quando, só para ver como as pessoas continuavam a ir, lá embaixo. ele ali no décimo quarto andar; fazia de conta que ia cair, andava um pouquinho, descalçava as sandálias e colocava o dedão do pé bem no vento; e se agarrava com as pernas, sentado, bem no limite do abismo. podia sentir o sol chegando, devagarinho. os cabelos meio caídos se balançando junto com ele e com o vento — ele gostava dessa sensação de liberdade que o vento conferia a seus cabelos. mas vejam, ele bem sabia que uma hora ou outra ia ter que decidir: se pisava no vazio e se espatifava lá embaixo numa limusine muito glamourosa parada ali desde a noite anterior, ou apenas voltar pro seu quarto e fingir que só dormia. e afinal tinha de decidir muito rápido: a tia iria acordar dali a instantes mas não, ele não conseguia — eu não consigo ir mas também não queria ficar só consigo ver o que ninguém consegue ver e todo mundo espera tantas coisas é tanta pressão é tanta agonia e eu só queria ficar meio quieto mas tem tanta gente ao redor tanta gente burra e doida e eles que vivem dizendo que eu sou louco mas não os doidos são eles eu já disse disse ontem mesmo e como é possível que não saia uma palavra gentil da boca desses meus queridos amigos por que infernos eles só me desprezam pra cima e pra baixo já não aguento mais feito no dia que eu quis sair da classe porque estava enjoado e os meninos começaram a dizer fica senão a gente te pega e eu dizia nada porque com essa gente não se brinca não de verdade e eles diziam você sabe que a gente vai bem atrás de você e eu dizia nada só saí um deles veio atrás de mim e eu não queria correr então andei pelo corredor até o fim e ele veio e me empurrou na parede eu caí ele me arrastou pelos cabelos e bateu a minha cabeça no bebedouro thump ninguém viu não tinha ninguém pelos corredores nessa hora mas todo mundo já sabia do que estava acontecendo há algum tempo eu já tinha dito a diretora e ela disse que iria repreendê-los mas até agora nada — ele olha pra cima e vê os primeiros raios de sol chegando: um céu muito cinza, já manchado de laranja claro, uma inocência de começo, um brilho débil no meio do peso daquela cidade. ele olha pros próprios pés e atira uma de suas sandálias para a queda, depois a outra. começa a tirar a camiseta, mas sente um frio maroto correr pelas costas e decide ficar vestido. ele olha ao seu redor, sente mais uma vez o vento e fecha os olhos: consegue ver a manchinha vermelha que ficou perto do chão, lá onde o bebedouro fica na escola; procura mais um pouco naqueles vestígios da escuridão e encontra um borrão: o rosto do menino que saiu da sala e o perseguiu; olha bem e de olhos fechados para aquela coisa sem forma e não consegue lembrar de como eram, de fato, os contornos do outro, só lhe ocorre a bruma. abre os olhos e vê a linha do horizonte, intransigente, dividindo a plenitude da concretude; sente vontade de abraçar, de abarcar tudo aquilo com seus braços magrinhos, mas ele se sentia tão frágil que quase caiu em prantos pelas sandálias novinhas que acabara de desperdiçar. também quis chorar pela tia, mas decidiu que não deveria chorar realmente por nada, nem por si mesmo. tirou a camiseta de uma vez, tirou as calças, tirou a cueca, ficou nu. subiu na beirada, olhou pra baixo e olhou pra trás uma última vez pra contemplar o sol; a estrela bronzeava aquele corpinho tão frágil, parecia naquele momento que à primeira brisa ou lufada ele ia deslizar levemente na direção do limite do horizonte. ele se protege do frio, olha para aquela limusine maravilhosa e respira fundo — um dois já fui já fui mais que um saco de batatas pra esses porcos.

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