Desajustes do eu

Deslizo os dedos sobre a água parada na minha frente. 
Para constatar a certeza do movimento forçado.

Na taça, após cada gole de vinho seco, se acumula na borda um vestígio das minhas expectativas.

Em passadas demoradas, a calçada sob meus pés tem quilômetros de distância. 
Meu reflexo nas vitrines das lojas já fechadas, confirmam o desalinho do meu passeio noturno.

As luzes defeituosas nos postes clareiam meus pensamentos, eu aprendi a estar só.
O frescor do vento desordenava gentilmente meus cabelos.

As ruas vazias não distraiam meu olhar determinado. Pronto. Decididamente resolvi te colocar em mais uma escrita.

Eu chego ao beco do meu destino e paro. 
Pronto.

Você se esvai dos meus pensamentos

Foge das palavras poéticas

Se debate por entre meus lábios e se vai.

Ja arrumando as malas e bagunçando a sincronia dessas palavras você se despede.

Sem portas entreabertas ou sussurros nas escadas. Através do vidro eu te vejo se distanciando e vejo também meu reflexo.

A taça está sempre cheia e vazia

Cheia

Vazia

Cheia

Vazia ...

O quarto está escuro e a companhia da minha solidão me sufoca.

As ruas estão cheias

Cheias de olhares

Cheias de desejos que não correspondo

Cheias de palavras vazias...

Tão vazias quanto essas.