
Ponto de interrogação
No momento em que a máquina encosta na estação solitária e derrama por suas portas um número infinito de pernas, penso na lentidão de nossas respostas. Das que viajam de muito longe e também das que saem das nossas estações sem rumo definido.
Lutando bravamente como um cão indesejado no meio da multidão, sinto que elas insistem em nos procurar. Entre tantos olhares dispersos e desatenciosos, as respostas seguem sempre na direção contrária de todos os pés.
Além de cães perdidos a estação tem pernas. Já detalhei suas habilidades? As pernas se costuram uma nas outras em um ritmo indiano e instantes depois já não estão mais lá. Fugazes como os segundos de sanidade crua que vez ou outra aparecem nos trilhos e acertam em cheio os trens.
É dolorido e estrondoso. Deixa sempre órfão algum Josué que não via e não entendia aquela analogia horrenda da vida.
Pobre estação. Sempre cheia, sempre vazia.
Rica de passos incessantes e pensamentos inconstantes, essa estação não está aqui há muito tempo, está plantada em uma rotatória, não fosse um engenheiro bem entendido de planejamento urbano eu diria que ela está lá só para causar náusea naqueles que descem do trem ou dos desavisados que, ao errar a rua, acabam contornando sua via irregular.
A próxima estação, dizem que é mais cruel. Na parada final sempre ecoam pensamentos amargos e saltos finos que chutam seus cães raivosos. Aqui não há bancos para esperar. As respostas chegam tarde demais no fim da linha.
