De Fukuyama a 2019 muito se passou, mas a luta de classes continua mais viva do que nunca, embora já não mais na mão dos comunistas. A classe burguesa, reorganizada, pulverizouse-se de maneira quase invisível, deixando inimigos fictícios para preencher o vácuo deixado, afinal, a luta de classes é inevitável, e é justamente ela o coração do pensamento anticomunista contemporâneo.

É extremamente comum ouvir das pessoas que a URSS era “uma terrível ditadura onde poucos detinham o poder e o povo era oprimido” — ironicamente uma descrição adequada, ainda que simplista, do capitalismo. O que a esquerda aparentemente não fez até hoje foi se perguntar genuinamente sobre as origens de tal pensamento, suas motivações e operações para além de respostas toscas como culpabilizar o monopólio dos meios de comunicação.
Se há algo que Trótski possivelmente estivesse correto, é sobre a máquina burocrática soviética ser algo que voltaria-se contra a ditadura do proletariado. Longe de Stálin ser o culpado por tal instituição, tendo em vista que foi imediatamente traído pela mesma após sua morte, o que vemos depois de 1953 é um processo gradual de loteamento do estado soviético por parte de burocratas, que foram consolidando seu poder no decorrer das décadas seguintes, culminando no fatídico 1991.
A queda da URSS não foi um acontecimento pontual, foi um projeto de desmantelamento por parte das elites desde a morte de Stálin, provavelmente até antes, embora em clandestinidade. Tal acontecimento é chave para compreensão da visão popular acerca do comunismo, pois não é de toda errada, é simplesmente ingênua e manipulada, porém o fundo é correto e praticamente inegável: Uma casta de burocratas tornou-se uma elite abertamente reacionária num regime onde a propriedade privada dos meios de produção havia sido abolido; em outras palavras, o poder simplesmente mudou de forma, fora temporariamente derrotado em 1917, mudou de mãos, mas manteve-se ali, e isso é imensamente propagandeado pelo sistema capitalista, embora de forma totalmente distorcida.
Essa percepção popular da concentração do poder, aliada a alguns outras percepções oriundas do desconhecimento, como a aparente impossibilidade de mobilidade social, criou a ojeriza ao comunismo que conhecemos hoje. É importante notar como o capitalismo, ao propagandear tais questões, flerta com seu próprio perigo. Não se precisaria de muito pra esse sentimento voltar-se novamente contra as elites capitalistas, entretanto, o sistema possui outros mecanismos de difusão da atenção, quais listarei a seguir.
Os políticos como inimigos: A classe política é amplamente desacreditada. Essa questão não é inteiramente articulada, como também é orgânica da classe política parte da elite capitalista. O grande truque é desvinculação da imagem do político da imagem do empresário, mesmo que a maioria dos políticos o sejam. Pontuar e demonstrar que a classe empresarial e política são consubstanciais é imprescindível para a retomada do protagonismo na luta de classes.
Corruptos como inimigos: Uma segunda fase da primeira, esta é a face articulada e meticulosamente orquestrada da primeira. A maioria dos esquemas de corrupção envolvem a classe empresarial (i.e. superfaturamento de obras, benefícios políticos pra atuação de empresas, contratos fraudulentos etc). Entretanto, o extrato geral obtido disso é que o problema está “na corrupção”, uma entidade amorfa e de difícil nomeação, quase uma versão do século XXI de “o demônio”. Não é à toa que em muitos lugares do mundo esse tema é tratado como a inquisição, gozando de poderes extraordinários e paraestatais.
Os pobres como inimigos: Face mais perversa do tripé de desvio da percepção popular, pobres são “inimigos do progresso capitalista” — mesmo sendo essenciais ao mesmo. Esta forma se dá de diversas maneiras, desde a moral meritocrata altamente presente nos dias atuais, até o desprezo visceral aos miseráveis através da desumanização dos mesmos, que são taxados como prejuízo aos cofres públicos. Podemos ver esta moral se reforçando no Brasil desde o início das políticas de assistencialismo e ações afirmativas do governo petista no Brasil.
Devidamente exemplificados, vejamos então que hoje o Brasil é governado por um presidente que se pretende contra todas essas coisas, um outsider. Se o Marxismo cunhou a luta de classes, hoje o domínio do discurso está nas mãos do que o Marxismo mais abomina, daquilo de mais vil e asqueroso que pode haver em nossa sociedade, e é flagrante a destreza como a elite burguesa camufla seus rastros e direciona o ódio inconsciente à desigualdade contra inimigos vazios e sem face, nome ou CPF.
É dever revolucionário, então, ter a clareza da luta de classes como algo orgânico e implacável, algo que não será jamais perdoado na história pelas mentalidades populares, ainda que estejam com suas percepções distorcidas. A URSS, em seu longo processo de decadência, possuiu uma ascendente luta de classes em sua fase final, e a mesma é compreendida e apontada como tirania. A China comunista, embora nação de desenvolvimento sem precedentes, caminha para uma luta de classes cada vez mais flagrante, em que se amplia o número de bilionários chineses e a participação privada na economia chinesa. No mesmo passo, amplia-se a percepção popular de que a China é uma tirania. Assim por diante.
Cabe à esquerda, então, o oneroso trabalho de denunciar os verdadeiros donos do poder, ponderar e observar as falhas do socialismo real, especialmente entre as fases do socialismo real em seus respectivos governos. Se ignorar o legado soviético é mau-caratismo, defender integralmente é ingenuidade. Devemos nos atentar que o que ruiu os regimes socialistas é exatamente a mesma doença que rege o sistema capitalista: ganância, orgulho e sede geral de poder. E é exatamente por isso que, ao fracasso do socialismo, regressa-se ao capitalismo.
