Compare um homem negro a um saco de lixo e receba aplausos

Basta ganhar uma medalha.

“Alvo de racismo de atleta finalista da ginástica artística, Angelo Assumpção apenas assiste aos Jogos”

“Este é um momento que ficou no passado e temos de esquecer. Foi uma brincadeira”.

Ficou no passado. Os maiores índices de desemprego e desigualdade social. O maior contingente de população de rua é composta por homens negros. Homens negros são maioria na população carcerária. As maiores vítimas de mortes violentas nas mãos de policiais são homens negros. Foi uma brincadeira.

“Ficou comprovado judicialmente que foi uma brincadeira. Se fosse assim, deveria entrar na Justiça contra todo mundo que me chamava de narigudo na escola”.

Tem razão. Narigudos foram todos sequestrados do seu mundo de origem e destroçados, revirados e submetidos à pior tragédia da humanidade: a escravidão. Os narigudos todos do mundo devem se levantar e lutar por seus direitos. Está certo.

Foi comprovado judicialmente que foi uma brincadeira.

Foi comprovado judicialmente também que pessoas negras eram coisas, e não seres humanos — e, portanto, poderiam ser escravizadas. Deveriam ser, já que não possuíam cultura, não possuíam civilização, no ponto de vista ocidental. O ocidente, suposto criador das leis. As mesmas leis, a mesma ciência deturpada, que comprovou cientificamente que pessoas negras seriam geneticamente inferiores. Que seriam intelectualmente menores.

E não o que muita gente por aí ainda acredita?

“Foi uma fatalidade, o perdão do meu amigo eu já tive. Somos uma família, foi um negócio que foi da porta para fora. É aprender com aquilo e nunca mais repetir. Para você ser campeão, tem que ser uma pessoa boa, nunca perder sua essência”.

Uma pessoa boa. Foi apenas uma fatalidade. Foi uma fatalidade que o povo pálido do norte se unisse para invadir o Continente e massacrar e submeter povos inteiros sob seu domínio. Foi tudo uma fatalidade, ficou no passado. Tanto ficou no passado que as pessoas caucasianas, que não passam de 10% da população mundial, são maioria absoluta nos cargos de comando das grandes empresas, no protagonismo de filmes e livros e de todas as formas de mídia de larga escala. As maiores fortunas do mundo, tudo nas mãos das pessoas de rosto europeu. Ficou no passado, uma fatalidade.

Tanto foi uma brincadeira que a delegação brasileira de ginástica artística é toda composta por homens brancos. Exceto por um, Angelo Assumpção, que não foi convocado. Aquele que possui os melhores resultados gerais. Aquele que foi ridicularizado e humilhado em rede nacional. Aquele que foi ordenado para que se calasse. Aquele que foi o único a não ser convocado, nem mesmo entre os suplentes. Uma fatalidade.

Judoca Rafaela Silva, uma mulher preta (sem vírgulas — não somos rótulos para as suas caixinhas de azeitonas desconstruídas). Chamada de macaca e humilhada durante os jogos de Londres 2012. Precisou ganhar uma medalha de ouro para ser tratada como um ser humano.

“Ela venceu o racismo!”, divulgaram os grandes jornais e revistas.

Se ficar rico, concluir doutorado ou ganhar medalha de ouro fosse o mesmo que “vencer” o racismo, então não haveria racista rico, diplomado e medalhista.

Tal como o medalhista que todos estão aplaudindo. Mesmo depois de comparar Angelo Assumpção a um saco de lixo. Foi uma fatalidade.