O Grande Texto que vocês estavam esperando sobre Pantera Negra

Uma declaração de amor para todos nós

“O mito é um sonho coletivo; o sonho, um mito pessoal” — Clyde W. Ford em Herói com rosto africano

O texto pode ser mais um entre tantos. Tanto foi dito e será dito muito mais ainda. Isto aqui não é uma análise acadêmica precisa, tampouco uma dissertação ativista analítica. Na verdade, acaba tendo um pouco de ambos. Trata-se, talvez, de uma narrativa apaixonada e pretensamente literária de um assim considerado escritor. Ficou mais longo do que eu pretendia, mas leiam até o final — tenho certeza de que a leitura valerá a pena.

SPOILERS provavelmente.

Louvados sejam os ancestrais. As estrelas estão próximas. A ficção existe desde o início de todas as coisas. Contar histórias para preservar a memória cultural, para compartilhar sonhos, inspiração e caminho, compartilhar a pretensão de criar novas realidades. Louvados sejam os ancestrais.

O início de todas as coisas sempre começa com uma história. Os primeiros seres humanos, filhos do Continente, criaram as primeiras civilizações, ciências e tecnologias. A dádiva veio das estrelas, e as estrelas são os próprios ancestrais. Os deuses não são astronautas, são filhos da terra, capazes eles mesmos de criarem seu próprio futuro.

Muita coisa já se remexeu aqui dentro logo nos primeiros minutos. Essa história causa esse efeito. Nunca permita que diminuam a importância que o filme tem para você. Não precisa explicar pra ninguém. Quem sentiu, sentiu. Não perca tempo discutindo nem tentando provar nada. A ficção causa explosões de inspiração e força para lutar as batalhas no mundo real. A ficção tem esse poder de nos reconectar as nossas lendas ancestrais. Nunca permita que ninguém diminua a importância que o filme tem para você.

Esse filme é uma declaração de amor a todas as pessoas pretas no mundo.

T’Challa é o protagonista definitivo. É o modelo ideal de homem negro que nunca tivemos nem nunca fomos. Protagonistas pretos tivemos sim, mas quase sempre estereotipados, malandros, envolvidos com o crime, drogas, violentos e traumatizados. T’Challa é um homem preto nobre, educado, inteligente e poderoso. Uma masculinidade segura de si, sem precisar provar nada a ninguém. Um homem preto que respeita as tradições, respeita o matriarcado africano, respeita a ancestralidade. Ainda assim, um ser humano, com suas fraquezas, suas dúvidas, suas incertezas. T’Challa é o protagonista que segura as pontas, o protagonista em torno do qual toda a trama se desenrola, o protagonista cujo brilho não é diminuído por dividir o protagonismo com as rainhas pretas que resplandecem na película.

Wakanda é a terra prometida, o que a África poderia ter sido sem a interferência europeia. “Wakanda não existe!”. Da mesma forma que “não existem” a escolinha do garoto bruxo inglês, não existe a terra do pequeno e seu anel mágico, não existe o mundo do loiro de martelo que é o orgulho da mitologia escandinava — mitologia essa que persiste em inúmeras obras de ficção, filmes, jogos. E ninguém nunca havia reclamado antes… Wakanda existe sim, não no mundo físico, mas metafisicamente, no mundo das ideias; existe não como fato e sim como metáfora; Wakanda existe como lenda do futuro, como lembrança do passado que nunca tivemos, Wakanda existe dentro de cada pessoa preta que tem a pretensão de caminhar no mundo com os seus próprios pés e de acordo com os seus ideais. Da mesma forma que o nome “Afrofuturismo”, Wakanda e Pantera Negra são criações de homens brancos, mas nós nos reapropriamos do que sempre foi nosso e contamos nós mesmos a nossa história. Wakanda pra sempre!

Saudação das Dora Milaje, as guerreiras da nação. Mulheres altas trajadas de vermelho. Parecem até filhas do vento e da tempestade. Inspiradas nas Mino, as guerreiras do povo Fon do Reino do Daomé, que formavam regimentos militares e resistiram às invasões europeias até o final do século 19. Dora Milaje, bastiões do poderio bélico do reino, saudavam o rei com rigidez, sempre sérias e firmes no cumprimento do dever. Mulheres pretas guerreiras, pois para o povo preto nunca houve essa de “sexo frágil”, o povo preto é guerreiro como um todo, pois nossas divindades ancestrais, sejam masculinas ou femininas, todas carregam armas, é só verem os Orixás. Ah, muito importante, não eram mulheres africanas seminuas, como sempre se espera, usavam roupas, roupas africanas, pois o Continente não é o estereótipo de pretos vestindo tanguinha, é uma diversidade incrível de vestes e trajes, como veremos mais adiante.

General Okoye é a melhor canção de batalha que pode existir em todo o universo. É a guerreira suprema entre todos os seres e raças, em qualquer gênero e grau. Cada vez que ela saca sua lança, raios e trovoadas explodem na tela. Okoye é uma força da natureza, implacável, imprevisível, impressionante. É também uma apaixonada, uma devota, uma força fidedigna aos seus ideais mais elevados, mesmo que esses ideais dilacerem o seu grande coração. Ela só não venceu o antagonista no final por exigências do roteiro. Confesso que tive muito medo que ela fosse empalada pelo rinoceronte, mas, em vez disso, recebeu um caloroso beijo da fera. Ouso dizer que Okoye é uma verdadeira filha da Rainha Vermelha dos Ventos.

A Rainha-Mãe Ramonda aparece. Rainha Ramonda, uma Candace, título das rainhas que exerciam funções políticas, sociais e culturais de governantes efetivas do Império Cuxita e das dinastias egípcias, apesar de seus filhos serem os reis “oficiais”. É a marca do matriarcado africano, representado em Rainha Ramanda, nas Dora Milaje, e Nakia e Okoye, em Shuri, em todas as mulheres pretas poderosas do filme. Muito antes das lutas das mulheres brancas contra o patriarcado europeu, muito antes do advento do feminismo, o matriarcado africano já era milenar; as mulheres pretas já eram rainhas e generais de seus reinos, governantes, médicas e cientistas, e continuaram sendo mesmo quando acorrentadas para a diáspora forçada no “novo mundo”.

Quanto mais de Wakanda nos é mostrado, seus costumes, seus rituais e as múltiplas culturas que a formam, mais somos inundados da certeza que já tínhamos: a diversidade negra é a maior que existe no mundo. Só os cinco povos — me recuso a chamar de “tribos” — principais sentam na mesa do Conselho já mostram a riqueza cultural e história do Continente. Todos os povos são inspirados em nações reais, com toques necessários de ficção aqui e ali. É de encher os olhos, é de inundar a alma.

Cada um dos cinco povos principais é representado por um guerreiro — que pode ser ou não o soberano do povo, mas não necessariamente, já que esse cargo geralmente cabe a uma mais velha ou mais velho. Por exemplo, entendo que T’Challa já era o guerreiro que representa a família real, mas não era o soberano, até o falecimento de seu pai. Durante o ritual de coroação, T’Challa seria desafiado por um guerreiro poderoso do povo, e não por seu soberano. Esse detalhe é muito importante, pois ilustra a natureza guerreira dos povos africanos como um todo. Repare, por exemplo, que Okoye e Nakia eram as guerreiras que representavam seus respectivos povos. Digo mais uma vez, e mais uma vez de novo: Homens e mulheres africanos, não tinha essa de “sexo frágil”… é só ver que todos os orixás masculinos e femininos carregam armas e têm histórias de batalhas. Sempre fomos e sempre seremos um povo guerreiro.

Nakia seguramente é a melhor personagem do filme. Nem é justo fazer essa equiparação entre os personagens porque todos e todas se destacaram de alguma forma, cada um no seu papel. Nem chamo ninguém de coadjuvante, e sim de coprotagonistas. Mas Nakia é que representa a verdadeira visão a ser seguida, a verdadeira antítese do antagonista. A guerreira Nakia já estava arriscando sua vida em missão humanitária logo que o filme começa. Ela mesma vai e faz o que considera ser o certo, mas sem forçar ninguém a seguir o que acredita e sem impor nada a ninguém. Ela respeita a decisão do rei de manter a nação escondida, mas não concorda com isso e sai para fazer o que julga ser o certo. No final da história, a visão que prevaleceu foi a da Nakia. Nakia, mais do que uma mera espiã, uma lutadora, uma pessoa amável e que ama, que luta pelo que acredita e pelo que ama, que faz o que é o certo, mesmo que seja contra as leis. Nakia é a verdadeira governante que o mundo precisa, e pra mim é a futura rainha de Wakanda.

Interessante constatar que a Nakia do filme pra mim representa exatamente a Tempestade dos X-Men. A relação entre ela e T’Challa é antiga nos quadrinhos, mas Ororo Munroe, a Tempestade, e o Pantera Negra só vieram a se casar em 2005 após o arco A Noiva do Pantera (Hudlin). Foi um acontecimento tão impactante que foi considerado um cessar fogo durante a Guerra Civil que tava rolando entre os super-heróis. Infelizmente foram separados durante Vingadores vs X-Men (2012), mas graças aos ancestrais estão reatando desde 2016 (Coates). Tempestade sempre se mostrou uma rainha mais do que capaz, uma governante que pensava no bem de todos e arriscava a vida por isso, ainda mais que T’Challa, exatamente como a Nakia do filme pensa e faz. A Nakia original dos quadrinhos na verdade foi uma Dora Milaje que se apaixonou pelo rei mas não teve seu amor correspondido, então ela acabou se tornando uma vilã (Priest, 1998). Talvez pela impossibilidade de inserir a Tempestade no filme por razões contratuais, optaram por conferir à Nakia o papel que seria de Ororo. Agora que a Disney comprou a Fox, seria possível amalgamar de alguma forma das duas personagens? É esperar pra ver. Enquanto isso, mantenho a opinião: Nakia é a melhor personagem do filme, é quem verdadeiramente luta por justiça social, econômica e igualitária — tal como Ororo faria — e mais do que merece ser a futura rainha.

A espiritualidade wakandana brilha em diversos momentos do filme, mas pra mim teve seu ápice durante os ritos de passagem do rei. Para quem passou por rituais iniciáticos, como eu passei no Candomblé, foi uma cena bastante intensa e tocante. Os rituais tradicionais africanos realmente lidam com essa simbologia de morrer para renascer numa nova vida. Nosso “paraíso” não está no céu, como imposto pela cultura ocidental, e sim na própria terra, ou melhor, nosso mundo sobrenatural existe sobreposto ao nosso mundo real. Da terra viemos e para terra voltaremos. Nossos ancestrais estão na terra, e por isso que, nas religiões afro-brasileiras, nós andamos descalços, saudamos o chão e encostamos nossas cabeças no chão quando vamos saudar nossa ancestralidade e nossos mais velhos. A cena no Djalia, plano espiritual da memória, foi tocante demais. A oportunidade de reencontrar seu ancestral no plano sobrenatural é um elemento incrível e inserido de forma maestral na cosmologia do filme. A espiritualidade africana foi muitíssimo bem representada nas telas.

A tecnologia wakandana vai muito além do que as pessoas dizem ser “afrofuturismo”. Muito se diz sobre o tema mas pouca gente ainda consegue vislumbrar de fato. Wakanda pra mim ilustra muito bem o que eu mesmo venho escrevendo nos meus livros: uma nação detentora de uma ciência espiritualizada, considerada “fantástica” e “à frente do seu tempo”, uma grandiosidade criada pelo gênio de pessoas pretas e inspirada e guiada por nossas divindades ancestrais. Como eu já disse antes em textos anteriores, a divisão entre ciência e religião é uma deturpação europeia.

Shuri é a princesa acima de qualquer outra que tenha surgido na ficção. Engraçado que, de todos os personagens do filme, ela é que mais se difere da sua versão dos quadrinhos.

Temos a Shuri original criada pelo Reginald Hudlin no seu run de 2005, no arco “Quem é o Pantera Negra”; aquela Shuri era uma garota impulsiva e ambiciosa, era inteligente mas não era um gênio; essa Shuri pouco a pouco foi se desenvolvendo, crescendo, até se tornar uma mulher poderosa e, finalmente, rainha de Wakanda e nova Pantera Negra. Infelizmente, ela morreu se sacrificando para defender Wakanda de um ataque do Thanos (!!). Anos depois, ela foi ressuscitada durante o run do Ta-Nehisi Coates, atual roteirista do gibi do Pantera Negra; só que, após passar algum tempo no Djalia, o plano da memória ancestral, ela retornou como uma espécie de semidivindade, detentora de poderes sobrenaturais e extremamente sábia, efetivamente uma personagem completamente diferente da menina voluntariosa que foi um dia.

Nenhuma dessas duas Shuri tem nada a ver com essa menina genial e surpreendente, a personagem mais divertida e sarcástica de todo o filme, uma jovem mulher hiper-inteligente criadora de tecnologias impressionantes, a princesa que nossas meninas pretas precisam pra se espelhar, pra se inspirarem a abraçar a tecnologia e seus códigos como uma carreira possível pra vida. Shuri representa uma nova geração de garotas pretas dispostas a tomar o mundo que sempre lhes pertenceu. Essa personagem se destaca demais com seu espírito alegre e afiado, com sua perspicácia e suas alfinetadas, e até mesmo com sua rebeldia atrevida típica dos jovens. Um espelho pra meninas — e meninos — de pele preta.

As cenas externas de ação ficaram excelentes. As interações com o mundo lá fora ficaram muito boas e representam a multiplicidade de reações possíveis do povo wakandano frente aos “outros”. Por exemplo, a cena do cassino foi incrível de muitas maneiras, tanto nas falas quanto na porrada; aliás, as cenas de luta foram muito bem coreografadas, mostravam toda a ferocidade e disciplina tática dos wakandanos; a precisão cirúrgica do furacão Okoye encantava qualquer um; a graça e força de Nakia eram dignas de aplausos; a garra e a perseguição do rei T’Challa lembrou o Pantera da Guerra Civil: um caçador persistente, preciso e objetivo. Não há nada de pacifista em T’Challa; ele é a verdadeira masculinidade alfa, ele só é agressivo quando realmente necessário para proteger sua nação, e não tem o menor remorso em ceifar a vida dos inimigos do seu povo. Só não dilacerou sua presa ali mesmo por causa dos onipresentes celulares…. O Pantera Negra, pra mim, é um rei descendente da nobre linhagem de reis caçadores

Feitas todas as apresentações, o filme muda de cara com a entrada do maremoto Killmonger. O antagonista, o vilão. O espelho distorcido do Pantera Negra. Muito já foi dito sobre esse personagem e muito ainda será falado, então iremos direto ao ponto: Erik Killmonger não tem nada a ver com o líder Malcom X. Erik Killmonger não é uma propaganda anti-panafricanista. No meu ponto de vista, panafricanista real e visionária é Nakia. No meu ponto de vista, Erik Killmonger representa os meninos e homens pretos abandonados, tão traumatizados, tão violentados pelo sistema, que acabam se tornando bandidos, que roubam, mentem, matam, batem em mulheres, desrespeitam as tradições e saem pra destruir tudo — exatamente o que Killmonger fez no filme. Ele é criança abandonada da diáspora, ele é o resultado da omissão, do descaso, o filho de um sistema opressivo que o quer morto. Seu discurso está certo, mas seus métodos estão errados. Killmonger é um antagonista que faz muito sentido; é o melhor, mais complexo e mais profundo vilão que já vi num filme de super-herói. Sua frase final… foi verdadeiramente um tiro no meu coração e na minha alma. Me dilacera até hoje. Me atrevo a dizer que, apesar de sua obsessão sinistra, sua determinação em cumprir seu objetivo, seu foco inabalável de viver cada dia para realizar aquilo que mais deseja, é realmente admirável. Até eu torci para que ele sobrevivesse… Erik Killmonger representa as nossas crianças abandonas que acabam se tornando criminosos. N’Jadaka não é meramente uma besta raivosa a ser abatida; é um ser humano complexo e complexado, um rapaz vitimado pelo sistema que infelizmente se tornou aquilo que o sistema espera dele: um homem preto violento, perigoso e maníaco. Ele representa aquilo que o homem preto não deve ser; representa a masculinidade perversa e doentia que esperam de nós. Ele é o reflexo da vilania que devemos superar para sermos melhores.

O segundo ritual de combate é uma cena bastante emocional. Mesmo que seja óbvio pra muitos que o herói não morreu de fato, ainda assim, sempre que presencio o choro das mulheres presentes, sempre que ouço o grito da Rainha Ramonda pela derrota de seu filho, dá vontade de chorar… porque lembra as mães pretas que perdem seus meninos para a violência, para as drogas, para a brutalidade policial. Meninos e homens pretos morrem no front de batalha, deixando suas mães e irmãs e esposas, as únicas que choram pela sua partida.

Outro personagem predileto: M’Baku. Inicialmente um antagonista, desafia o então príncipe por não concordar com os rumos e decisões da família real. M’Baku, um tradicionalista, um conservador, mas, acima de tudo, um homem orgulhoso, que honra seu legado. Grande, intimidador, parece o estereótipo do homem preto violento. Nos quadrinhos, realmente ele não passa de um brutamontes… A luta contra T’Challa é bastante feroz. Quando o príncipe reage, o derrota e poupa sua vida, ficou óbvio para mim que M’Baku voltaria como um aliado. Dito e feito, é o povo exilado nas montanhas, do qual M’Baku é líder, que resgata o rei da morte, é M’Baku que acolhe a família real deposta, ainda que mantendo sua pose de grande intimidador. Porém, ainda que haja tensão no ar pela rivalidade Jabari vs Família Real, M’Baku mantém-se respeitoso, a exceção de Shuri, a qual lhe causa desagrado pelo que ele considera como desdenhosa das tradições. A cena em que M’Baku e seu povo silenciam agressivamente o único homem pálido da sala… São vários os significados, a mensagem é nítida, extremamente poderosa e gratificante. No final, quando se pensa que o líder Jabari seria apenas mais um estereótipo do homem preto violento e agressivo, o que nos é mostrado é um homem respeitoso, honrado e… bondoso! Um homem grande e vegetariano! Sim, é possível ser grande e forte sem ingerir carne; muitos povos africanos são vegetarianos por tradição, por isso fiquei maravilhado com a descoberta. M’Baku foi uma das grandes surpresas do filme, pois foi muito além do Homem Gorila estereotipado e patético dos quadrinhos para o Grande Gorila orgulhoso e complexo do filme. Um modelo de masculinidade preta que realmente precisamos ver com mais frequência nas telas.

As cenas do combate final são excelentes. Não vejo nenhum problema com algumas obviedades esperadas de filme de super-herói; o problema nunca foi ser clichê e sim como esse clichê é contado. Por sinal, muitas coisas que ocorrem no filme são esperadas, mas ocorrem de maneira natural, orgânica, ao meu ver, oferecendo boas soluções sem forçar a barra de nada. O combate final, mesmo que sendo pretos vs pretos, não foi pra valer, não houve matança entre os nossos. Foi um conflito de ideias, pra resolver diferenças, numa situação de compreensível confusão de lealdade. Nesse sentido, quem eu menos gostei foi W’Kabi, apesar de compreender seus motivos. O líder do povo da fronteira teimosamente permaneceu leal àquele que lhe prometia a limpeza mundial que tanto almejava. A cena dos rinocerontes de batalha foi algo estereotipado e impactante ao mesmo tempo. Confesso que senti muito medo que Okoye fosse empalada… mas o beijo da fera foi uma grande surpresa e um enorme alívio. Num filme em que romances pouco foram explorados, ali ficou nítido que Okoye e W’Kabi eram realmente amantes. Depois, temi que ele a matasse na traiagem… mas no final, se ajoelhou e se submeteu à maior guerreira do reino. Essa cena de submissão, com todos os demais homens se ajoelhando perante as guerreiras… isso pra mim é matriarcado. Muito bom de se ver.

O derradeiro combate final entre T’Challa e Killmonger foi bastante parelho e muito emocional. Poder-se-ia dizer que foi um choque de ideologias, mas pra mim ficou nítido que foi um embate entre remorso e raiva. A culpa pelos erros do pai e de seus mais velhos contra a raiva pelo abandono e pela fraqueza de seus mais antigos. Enquanto que T’Challa não conseguia lutar com o máximo de suas forças por conta da culpa, Killmonger não conseguia evitar a fúria dilaceradora que o consumia. Killmonger carregava em si o peso de milhões de pessoas pretas abandonadas, destruídas, encarceradas e esmagadas pela diáspora forçada, pela grande tragédia da humanidade chamada escravidão. Só que Killmonger era guiado, acima de tudo, pelos espíritos malignos do ódio, tão traumatizado que estava, e não pararia até que destruísse tudo… ou fosse destruído. T’Challa não teve outra escolha, a não encerrar a vida de seu oponente com um golpe mortal, numa coreografia muito bem feita, uma solução excelente para um combate tão equilibrado e sofrido. A expressão de tristeza e amargura que se apresentou no rosto de Killmonger, derrotado, era quase um choro pela paz que ele sempre buscou. No final, o objetivo real dele era morrer de forma digna dando o melhor de si, mesmo recorrendo aos atos mais hediondos e perversos. A cena do por do sol, as suas últimas palavras… Era pra reverberar na nossa mente e na nossa alma mesmo. Tanto T’Challa quanto Killmonger ali finalmente se resolveram um com o outro.

No final final finalmente, houve a melhor solução possível: a abertura de centros comunitários de ajuda e assistência social. Acabou prevalecendo a visão humanitária de Nakia, a verdadeira heroína dessa história, como eu havia dito antes. Os países europeus e seus descendentes nunca pagarão sua dívida histórica para com os povos negros. Isso é fato. Por outro lado, uma guerra em escala global apenas trará mais tristeza e mortes. A solução de fortalecer as nossas comunidades por meio da assistência, ensino, cuidado e acolhimento é a melhor saída, é o melhor panorama possível. Confesso que durante a cena na ONU, eu temi que Wakanda tivesse realmente se aberto para os países europeus… mas a fala ignorante do político pálido no final deixou nítido que Wakanda permanece oculta e fechada para quem não deve saber de nada, mas aberta e prestativa para quem precisa, em especial para a nossa gente, para o reerguer do nosso povo. Nós nos ajudando para que nós mesmos possamos nos levantar, nós nos armando com conhecimento, espiritualidade e tecnologia para conquistarmos nós mesmos nossos caminhos, para vencermos com nossas próprias mãos e mentes os obstáculos do mundo. Esse é o recado final que o filme deixou para mim.

Uma declaração de amor para todos nós! Sim.

Pantera Negra é muito mais que um filme. É o melhor filme de super-herói já feito. Estou mais que ciente que se trata de uma ilha negra num mar branco. Mas isso não importa agora. O que importa pra mim é o sorriso e os olhos brilhantes das crianças, e as lágrimas e os espíritos renovados dos adultos. Um filme que vai muito além de um mero protagonismo negro. O que importa pra mim é além e construir novas pontes para garantir o nosso futuro. Pantera Negra é, certamente, um dos acontecimentos culturais mais importantes da década.

Vida longa ao rei! As estrelas estão realmente próximas. Louvados sejam os ancestrais…

Sim, estou ouvindo essa música todos os dias. É um dos clipes mais belos que já ouvi na vida…