O que Riri Williams significa pra você?

Por que nas manchetes o nome dela virou “Mulher Negra Que Vestirá a Armadura do Homem de Ferro”?

Riri Williams numa capa alternativa do novo gibi do Homem de Ferro

“Pra minha filha, que é fã do Homem de Ferro, não importa se a personagem foi criada por um cara branco. Não importa pra minha família se a Marvel está fazendo isso pra render polêmica e ganhar mais dinheiro. Eu sei que é assim, e mesmo assim pra mim também não importa, eu que estou começando a gostar de super-heróis também. O que importa é que a minha filha está vendo uma menina pretinha como ela usando a armadura do herói favorito dela, e ela está muito feliz. E eu também.”

Uma jovem mãe com rosto africano me disse o conteúdo transcrito acima, em certa ocasião, na qual eu declarei abertamente minha desconfiança perante as atuais ações de “representatividade” da editora Marvel. O que foi dito por essa mãe me fez pensar bastante.

A novíssima personagem Riri Williams, uma garota de 15 anos. Apareceu nos quadrinhos pela primeira vez em março deste ano, nas páginas do gibi do Homem de Ferro, lá nos EUA — aqui no Brasil só deve estrear ano que vem. Eu leio os gibis Marvel da gringa toda semana, tão logo são publicados, e presenciei a primeira aparição da personagem. Já escrevi bastante sobre ela; para mais detalhes, por gentileza cliquem nos links abaixo:

A capa que anuncia Riri Williams como “substituta” de Stark e que causou tanto furor é, na verdade, uma capa variante

O que vamos discutir aqui é exatamente o que o título sugere: o que Riri Williams significa pra você?

A verdade é que a personagem mal apareceu. Ela estreou no gibi mensal do Homem de Ferro, Invencible Iron Man #7 já no fim da história, e nos gibis subsequentes ela também apareceu rapidamente, em duas ou três páginas no máximo, sem estar conectada com a trama principal em curso. Ninguém que não acompanha regularmente gibis pareceu dar a mínima.

Última página de Invencible Iron Man #7 — primeira aparição de Riri Williams

Foi então que, durante a San Diego Comic Con, a maior convenção de quadrinhos do mundo, Bendis, o criador da personagem, anunciou que Riri Williams iria protagonizar o próximo gibi do Homem de Ferro — o gibi que virá após o grande evento da Marvel em curso, Guerra Civil II.

Parece que o mundo inteiro explodiu numa loucura de sensações e sentimentos.

Apenas uma personagem fictícia. Uma garota de 15 anos. Que mal havia aparecido.

Primeiros testes de voo feito por Riri com a armadura que ela mesma criou sozinha a partir de sucatas

Imediatamente, trocentos meios de comunicação, que normalmente não fala de quadrinhos, anunciaram em polvorosa: “Mulher negra vai substituir Tony Stark como Homem de Ferro”.

O que significa estampar na Manchete a expressão “mulher negra” ao se referir a uma menina de 15 anos? Por que Riri Williams, que tem nome, passa a se chamar “Mulher Negra” para os meios de comunicação em geral? Qual o objetivo desses ditos meios de comunicação em cravar o rótulo “mulher negra” no título de suas manchetes?

Em Novembro de 2015, foi lançado o gibi Marvel Moon Girl & Devil Dinossaur #1, protagonizado pela menina Lunella Lafayette — sobre a qual já escrevi bastante, acompanhem o link abaixo:

Lunella Lafayette, a mais inteligente que existe em todo o Universo Marvel

Quando a Lunella estreou no mundo dos quadrinhos, como uma novíssima personagem, houve pouca, ou nenhuma repercussão — e o gibi dessa menina é excelente, recomendo novamente e sempre. Quando a Riri estreou, como foi dito antes, ninguém deu a mínima. No entanto, foi apenas sugerir que ela iria “substituir” um famoso herói da editora para acontecer essa explosão ensandecida e esse “fascínio” em torno da personagem.

A verdade é que ninguém ligava pro Homem de Ferro antes de 2008.

Os filmes do Blade, em 1998, estrelados por Wesley Snipes, abriram a temporada de bons filmes de super-heróis da era atual. Seguidos por X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), a editora Marvel, que estava se recuperando de sua quase falência após uma temporada ruim nos anos 90, percebeu que era possível investir em filmes de super-herói. A editora criou então seu próprio estúdio, estudou seus concorrentes, recuperou os direitos cinematográficos de muitos de seus personagens e, em 2008, estreou o Homem de Ferro nos cinemas.

Sério. Antes de 2008, ninguém ligava pro Homem de Ferro. Ninguém nem jogava com ele no jogo Marvel Super Heroes. Eu lembro.

Mas admito que o Proton Canon era mó daora

Agora, em 2016, mais de dez filmes depois e muitos, mas muitos dólares no bolso, as atenções para os quadrinhos da Marvel nunca estiveram tão em alta — novamente, me lembro da época em que pouca gente ligava, exceto pros X-Men, que foram febre nos anos 90 por causa do desenho clássico. Eu comprava os gibis aos montes, e ninguém dava a mínima; mas hoje…

Muito está se dizendo a respeito das “ações de ‘representatividade’ promovidas pela Marvel”, tanto de forma positiva quanto negativa. Por quê? O que nos levou a isso? Que panoramas históricos, culturais, científicos e espirituais nos trouxeram a essa situação em que o mero anúncio de uma garota de 15 anos causa tanto furor?

“Representatividade”. “Diversidade”. “Inclusão”. O que essas palavras significam? Por que vêm sendo tão exaustivamente repetidas a ponto de se tornarem chavões? Clichês? Quais as motivações por detrás de quem prefere tais palavras? Por que será que a pessoa de rosto africano não é nem chamada pelo nome, e sim por um rótulo, “negro”, “mulher negra”? Que imaginário imposto nos levou a isso? Quem é beneficiado em catalogar pessoas como se fossem uma bandeira, um furo de reportagem, um pote de azeitonas?

Essa imagem da (nova) Marvel NOW causou alegria — e fúria — em muita gente. Por que isso acontece?

O que os heróis significam para você? O que a vitória do herói te causa? Por que a vitória do herói te inspira? Por que será que, por meio do triunfo do herói, você acredita também ser capaz de ser algo mais? Por que te alegra tanto quando o herói é parecido com você? Por que te desagrada tanto quando aparentemente o deixa de ser? Quais as bases psicológicas e morais que você construiu em torno daquele personagem que só existe no mundo da ficção?

Que imaginário está sendo criado para as pessoas de rosto africano? Que imaginário estamos criando para nós mesmos?

Escrevi esse texto ao testemunhar uma avalanche de jornais e sites ansiosos e desesperados para serem os primeiros a anunciar que Riri Williams havia ganhado um nome super-heroico: Iron Heart. Na maioria das ditas manchetes, dizia-se: “Mulher negra ganhou nome”. Mas nenhum dos seus nomes constava na cabeça da notícia.

Capa oficial do novo gibi do Homem de Ferro, no qual o nome heroico de Riri Williams é anunciado

No entanto, nada disso importa para a filha daquela jovem mãe. Nada disso importava para aquela jovem mãe. O que importa é que o seu herói favorito agora era parecida com ela. Agora era uma heroína de rosto africano. E, num mundo de supremacia branca, num mundo de valores e imaginários europeus impostos, essa pequena vitória significa muito.

Afinal, que a reações a figura dessa pessoa te causa?