Vamos bater palmas sim! Mas precisamos ir além disso

O papel espiritual do aplauso, a espetacularização das falas e a necessidade de canalizar a energia para a ação

African Children’s Choir at the Flynn on April 16, 2015

A mesa está pronta. O palestrante é apresentado ao público. Aplausos. O palestrante pega o microfone e inicia a sua fala. Palavras, frases, dados, constatações, experiências, vivências, estudos, teses, teorias. As pessoas ouvem, se permitem, cada um com o seu grau de atenção e interesse. A interação segue. De repente, uma palavra, uma expressão, uma frase que, proferida, é solta no ar como um tapa na cara, um soco no estômago, como um choque elétrico que remexe as estranhas da tua alma. E então, as pessoas se levantam. E aplaudem. Aplaudem muito.

Na tradicionalidade africana, todo movimento e sentimento envolve a ação do espírito. O espírito, que vive dentro de nós, e também ao nosso redor, nos influencia, nos anima, nos impulsiona. Pois o espírito é a própria expressão metafísica da nossa consciência, é a força que emana de nós mesmos. Dessa forma, pode-se dizer que o ato de bater palmas, como demonstração de absoluta concordância, prazer e satisfação, perante o contador ali no palco, é uma forte troca de energias espirituais. Você, que está batendo palmas com força, está oferecendo um pouco do seu anima, ou seja, um quinhão do seu espírito, para aquele e aquela que acaba de lhe causar o choque, o remeximento, o tremelique que alcançou alguma parte profunda da sua alma. Por isso, você, em total êxtase pelo prazer que aquelas palavras lhe proporcionaram, emana o seu espírito não apenas para o orador, mas também para todos ao seu redor.

Dessa forma, a troca energética de catarse extrema é compartilhada por todos os presentes. E nossas almas se regozijam dessa troca, e nos sentimos mais fortalecidos.

Portanto, podemos dizer também que constitui num desperdício sem igual ficar apenas no aplauso.

O êxtase causado pelo aplauso é muito sedutor. Especialmente se o agente do aplauso for alguém que diariamente sofre violências de alguma doença social — racismo, machismo, homofobia e tantas outras; sentir-se espiritualmente contemplado pela fala do outro, ou seja, sentir o efeito daquele ritual de compartilhamento energético é sentir as boas graças do seu verdadeiro eu, da criança-prodígio que existe dentro de você.

Contudo, de nada adianta alimentar a sua criança com a energia sagrada do aplauso e desperdiçá-la não realizando nada. Não adianta você aplaudir e gritar de prazer e não usar essa força para fazer o que deve ser feito. Não adianta reduzir uma fala de poder a uma mera reação de espalhafatosidade vazia, e não cumprir o seu dever para com a sua comunidade. Não adianta aplaudir e deixar de cumprir o dever para com o seu espírito.

Da mesma forma, o palestrante possui imensa responsabilidade. Como catalisador do ritual de fortalecimento energético, é dever do palestrante, do orador, proferir os seus dizeres com responsabilidade. Para o bem da sua comunidade, e não meramente e unicamente para promoção pessoal. Como uma força capaz de tocar a multidão à sua frente, o orador não deve soltar palavras e frases de conhecido efeito moral e sentimental exclusivamente para manipular as pessoas que o ouvem; não é adequado, não é honesto, não é correto deixar-se mover unicamente pelo egoísmo e vaidade quando se está lidando não apenas com o próprio espírito, mas também com a alma das pessoas extasiadas e sinceramente emocionadas bem diante de você.

Vamos aplaudir. Vamos aplaudir sim. Vamos aplaudir sempre que nos sentirmos contemplados, energizados, alimentados. E vamos também canalizar essas energias para as missões que devemos cumprir. As falas de poder servem para alimentar a alma dos presentes, mas não devemos nunca esperar que alguém faça algo por nós e desperdiçarmos essa energia heroica da troca de aplausos. Não subestime a si mesmo, nem cometa esse crime contra o seu espírito; vamos aplaudir sim. E vamos agir.