Precisamos enfrentar nossa mídia

Não encontrei a autoria, se alguém souber de quem é, por favor me avise

Caso você esteja sem tempo, aqui vai um resumo da ópera [deste texto]: geralmente, toda a sua (nossa) mobilização política vai pelo ralo quando a mídia trabalha em causa oposta. Fim.

Caso tenha um pouquinho de tempo (e interesse), explico a seguir por que enxergo e acho isso…


Essa semana, me deparei com duas críticas de mídia muito boas — e nenhuma estava no Observatório da Imprensa, o que é bom por que mostra que a crítica está presente (e cabe) em outros lugares. (UHUL \o/)

Bom, uma delas foi essa aqui, escrita pelo jornalista João Filho (que aliás tem uma atuação interessante na área #fikdik) e publicada no The Intercept Brasil. E a outra, baseada em pesquisa empírica daquelas que dá gosto de ver, publicada na Repórter Brasil e disponível aqui.

As duas trazem dados que provam por A+B que a grande mídia está trabalhando em favor do governo, e de suas reformas.

E como a propaganda é a alma do negócio, vamos combinar que tá tudo "dando certo" até agora, né?

É simples, vamo lá… Como convencer a população de um país que tá tudo tranquilo e sendo feito da melhor maneira possível? Com um tweet desse aqui ó:

Aqui, reproduzo a fala do João Filho sobre a manchete acima:

Em nenhum momento da reportagem o leitor é informado que é incorreta a informação de que a “maioria da população é favorável” às reformas. Diferentes pesquisas indicam exatamente o contrário, mas nem precisaríamos delas, já que até o próprio governo federal sempre admitiu a impopularidade das reformas. O jornalismo que permite que o prefeito da maior capital do país minta sem contestá-lo com a realidade dos fatos não é jornalismo. É assessoria de imprensa. Do prefeito-presidenciável e das reformas impopulares de Temer.

Ok. Até aqui, nada de novo sob o sol.

Eu quero chamar atenção é para o fato de que (quase) NINGUÉM LIGA. (quase) Todo mundo sabe, mas (quase) ninguém liga. (quase) Todo mundo confia na informação que o Jornal Nacional traz. (quase) Ninguém questiona.

E eu tô generalizando sem generalizar, principalmente, por que me refiro à falta de ações práticas. É óbvio que a gente sabe da influência da imprensa no rolê. Mas e daí? Tamo fazendo o que exatamente pra mudar isso?

E é aí que tá minha crítica da crítica à crítica etc. Vejo pessoas incríveis e maravilhosas ultra-mega-militantes e que se mobilizam MUITO pra incidir na política, mas que estão ZERO preocupadas em fazer algo contra a atuação e o poder da mídia.

Quando penso nisso, lembro daquela lenda/metáfora/whatever da mina que borda de dia e desborda de noite pra adiar o término, sabe? Só que nesse caso, é um agente externo desfazendo o ~bordado~ que muita gente lutou bastante pra fazer.

É como se tudo o que "a militância" (qualquer uma… sociedade civil mobilizada, por exemplo) constrói fosse atropelado/destruído quando a mídia apoia o oposto. Não importa que o oposto seja rejeitado pela maioria da população (caso das reformas).

O fato é que vivemos em nossas bolhas. Então, para mim, jornalista e pesquisadora em comunicação, nada é mais óbvio nessa vida do que a necessidade de combater o poder que a mídia exerce na política.

Mas nem todo mundo tem isso claro nas ideia… Ano passado, na Virada Política, eu pude presenciar a falta de importância que o tema "Democratização da Comunicação" tem na vida de quem não é comunicador.

Faço parte do coletivo que organiza a Virada, e por vários motivos (quase todos logísticos) lá na hora acabamos decidindo juntar em um painel só 3 debates que estavam programados para acontecer separadamente: um era sobre reforma política, outro sobre reforma tributária e outro sobre democratização da comunicação.

Rolou quase que uma treta na mesa, por que a galera da reforma política não tava a fim de ficar debatendo democratização de mídia. Não achavam relevante. Achavam que não tinha nada a ver uma coisa com a outra.

Mas aí é que tá. Quando você olha para os gráficos do Manchetômetro fica nítido em qual time a imprensa joga. E não por acaso, meus amores, é o time que "está" ganhando (impeachment e avanço das reformas que o digam).

Então, me contem… como aprovar uma reforma (seja ela qual for, política, tributária, trabalhista, da previdência etc) que corresponda aos interesses da população, se a população só pensa em LULA PRESO AMANHÃ?

É só disso que os jornais falam. Não admira que seja com isso que a maioria das pessoas estão, de fato, preocupadas. Agora a pergunta: os jornais podem simplesmente dizer o que querem sem mais nem menos? Não, não podem.

E é nosso dever, como sociedade, enfrentar nossa mídia. Temos que criar/estimular essa cultura de enfrentamento. Não só entre os profissionais de comunicação, mas TODO MUNDO precisa duvidar, cobrar, reclamar e apontar o dedo na cara das grandes corporações midiáticas.

Mas como?

Para mim, umas das saídas está justamente em aprimorar o sistema de resposta social sobre a mídia (LEIA-SE: FAZER CRÍTICA DE MÍDIA DIREITO), conceito desenvolvido pelo professor José Luiz Braga, da Unisinos, no livro A sociedade enfrenta sua mídia que foi o livro base do meu TCC.

Segundo eu mesma, no meu TCC:

Braga sugere a existência de um terceiro sistema (além dos já estabelecidos “emissão” e “recepção”): o sistema de resposta social sobre a mídia. De acordo com ele, a sociedade é capaz de influenciar nos processos e produtos midiáticos por meio da crítica midiática.

Acontece que, segundo ele, os dispositivos de crítica midiática que temos até o momento ainda não têm abrangência e influência significativa.

Concordo com Braga: não temos crítica de mídia eficiente. E ouso ir além: não temos por que não está bem estabelecida a necessidade da existência crítica.

Por isso esse texto. Então, repito: crítica é importante, p*rr@.

Já que o primeiro passo para a reabilitação é tomar consciência sobre o problema, deixo aqui meu manifesto em favor da crítica de mídia. Conheçam dispositivos de crítica (abaixo alguns bons exemplos) façam crítica de mídia e vamos juntes enfrentar essa mídia corporativa que só joga em favor de seus próprios interesses.


O Machetômetro, a plataforma que citei ali em cima, traz gráficos maneiríssimos e faz o monitoramento diário da cobertura dos principais veículos da grande mídia, tipo Folha, Estadão, O Globo e Jornal Nacional.

Tem também a Caneta Desmanipuladora que traz um viés ideológico, mas não deixa de ser uma experiência de crítica midiática. O formato é original e super alinhado com as necessidades das redes.

O Observatório da Imprensa é sempre uma boa fonte. E o Farol Jornalismo tem uma newsletter maravilhosamente maravilhosa, também.