nessa luta de tantas batalhas disseram que não valiam nada nossos sonhos e que essa terra nem sequer era nossa e o que nos deixaram foi o vazio de não ter lugar num mundo doente — o que nos deixaram foi a doença original dissolvida em muitas outras
roubaram os espaços, as matas, os rios, as perspectivas e deixaram as correntes no pé da cama de um quarto abafado dentro de um apartamento como uma gaveta de guardar sapatos; e se nos deixaram os sapatos foi para que não pisássemos no chão; se asfaltaram o chão foi para que não pisássemos na terra; se esconderam a terra foi para que não a conhecêssemos exatamente como somos… nos enganaram quando levaram nossos alimentos e nos deixaram talheres e se pudessem nos teriam tirado também a boca e o estômago para que não tivéssemos contato algum com aquilo que nutre nossa vida
e a vida anda escassa ultimamente e não há como evitar a tristeza que passou a viver com nossa gente depois de tantas madrugadas de pesadelos acordados e o tanto da dificuldade em se adequar ao caixão que nos reservaram toda vez que andamos por essas cidades e vendemos a força dos nossos braços e nos debruçamos sob diplomas como se os diplomas fossem um horizonte limpo sem a fumaça que anuncia a chegada de um fim apelidado de progresso
pra além dos fatos que são nossos há aqueles que são nossos em particular e tudo isso que a gente camufla num sorriso de boas vindas em meio as passagens do dia… eu passei por ela que passou por mim e por ele e no entanto mal há o que dizer e eu sei e todos sabemos que afinal a tristeza está perto e nós lutamos porque lutar foi o que restou no caminho da felicidade dos nossos sonhos
um dia de cada vez, todo dia uma nova chance
