Tornado

tem horas que parece que só escrever vai resolver.

há uns dias venho sentido a saudade rondando meu dia, caindo um pouco aqui, um pouco ali.

há uns dias eu acordei, me olhei no espelho e vi meu pai. igualzinho. com os cabelos malucos de quem se mexe ao dormir, com a calça de moletom pra cima da cintura, com a blusa de magas longas pra dentro da calça e com os olhos azuis meio inchados do sono intranquilo.

ontem, já na onda melancólica, sei lá por qual motivo, lembrei do João, o motorista da UCI que deu a maior força aqui em casa quando meu pai cansou de dirigir. Isso foi antes do Heberson, então há uns 20 anos atrás.

estava contando que, uma vez, na estrada, acharam estranho um preto tão preto estar dirigindo um carro de luxo com um loirão no carro. a polícia parou. perguntaram pro meu pai se estava tudo bem, com aquele ar de quem desconfia e espera o pior. meu pai com todo calma do mundo (que lhe era nata), fala: -sim, está tudo bem, estou viajando com o meu filho.

os dois sempre contavam essa história se divertindo.

eu também me divertia.

fiquei com saudade do joão e resolvi procurar uma foto dele pra mostrar pra quem não chegou a conhecê-lo. encontrei lá numa pasta de 2005, de uma festa da UCI na chácara.

Esse é o João

desnecessário falar que meus olhos começaram a marejar aí mesmo, com saudade desse sorriso.

depois foi saudade dessas pessoas todas, das que estão ali no fundo, dessa bebê, da mãe dela e de todo mundo que fazia parte do meu todo dia até 2005.

pra ajudar, essa semana, tivemos que falar com o sócio que lá ficou. tem mágoa? cada dia menos. tem saudade? ainda? tem. como? não se explica.

todo dia eu almoçava com ele, sofria com as manias de um tio que eu não pedi pra ter. todo dia. todo almoço. ele parado no meu ombro impaciente 12:01, o preço da taça de vinho de porto (mas era um 20 anos, tio!), o creme de mascarpone que nunca ficava igual do gero, os pratinhos de polenta sem fim na churrascaria, o feijão de pouco caldo, a torrada que não veio quente, a mão cheia de balinhas na saída dos restaurantes (ai que vergonha), as gorjetas ridículas, a bmw roxa, etc etc etc.

e isso não é nem o pior. isso é o dia-a-dia. isso é o cotidiano que escondia as diferenças fundamentais de futuro esperado entre dois sócios que se amavam, mas mal se aguentavam e que não precisaram mais se aguentar.

depois de passear mais um pouco entre as fotos (quando eu começo, não consigo parar), senti o tornado me atingir em cheio. e como a gente vê nos filmes uma pessoa caindo e rodando, lá fui eu. lá fui eu passear em todas as pastas de fotos de 2005.

fiquei presa nas lembranças. fiquei presa nos momentos. fiquei presa nas pessoas.

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