PATRULHA CANINA: “A” MARSHALL OU “O” MARSHALL

Há algo estranho na Baía da Aventura…

Entre outros desenhos Júlio se descobriu fã de “pacaína” recentemente. Claro que eu estou me referindo à famigerada Patrulha Canina. E muito embora o desenho seja mais um daqueles tipo da nossa época, bobinho, sem muitos conflitos e feito especialmente para arrancar o nosso dinheiro com brinquedos, acho que ele é um programa bacana.

Aos 2 anos Júlio ainda não se concentra o suficiente em roteiro ou qualidade de animação, claro, mas ele se entretém identificando os personagens, rindo quando todo mundo cai, ou um helicóptero voa, etc. etc. A princípio, me parece que Skye e Chase sejam seus filhotes favoritos. A primeira porque ele adora helicópteros e o segundo, bem, porque sim. Ele adora repetir o nome “Chase” então eu acho que ele curte bastante o cãozinho policial.

Aí estou assistindo o desenho na Netflix e de repente surgiu uma dúvida. Durante a primeira temporada inteira e parte da segunda, dois filhotes, Marshall (o bombeiro) e Zuma (o de resgate aquático) são identificados como fêmeas pela dublagem.

Achei curioso porque, em conhecendo desenhos animados, nunca percebi que qualquer um dos dois fosse fêmea porque, bem, eles não são “female-coded” (ou “identificadas como femininas”). Quer dizer, eles não tem características físicas que os identificassem como fêmeas. Por exemplo, as duas únicas fêmeas da equipe, Skye (resgate aéreo) e Everest (resgate na neve) tem aqueles cílios alongados como a maioria das personagens femininas. No entanto, a dublagem brasileira colocou duas meninas para dublarem os filhotinhos: Sicília Vidal para “a” Marshall e Thamires Oliveira para “a” Zuma. Não há, no entanto, nenhum motivo aparente para este erro. Não que eu tenha identificado no desenho original, pelo menos.

Filhotes machos não usam rímel para delinear os cílios.

Pensei que, como antigamente, na dublagem brasileira, mulheres eram colocadas para dar voz a crianças, talvez tivessem escolhido as duas para fazer essas vozes, o que acabou gerando a confusão, mas nem foi. Hoje em dia nos estúdios de dublagem só criança dubla criança. Além disso tudo, houve uma adaptação no texto dos episódios, onde todos se referiam aos dois filhotes como fêmeas, então não era apenas uma questão de “voz errada”.

Mas até aí, morreu Neves. Foi só um erro na dublagem, mesmo que a princípio não haja nenhuma explicação. Na metade da segunda temporada isso foi corrigido e os dubladores Renato Cavalcanti e Yago Contatori foram escolhidos para substituir as vozes anteriores.

SÓ QUE

Tem pai reclamando. Pelos mais diversos motivos, aliás.

Tem gente achando ruim porque achava que o desenho era inclusivo e de seis filhotes principais, três eram meninos e três eram meninas. E tem gente achando ruim porque acredita que a “mudança de sexo” da Marshall é um plot sinistro de introdução da “ideologia de gênero” de forma sutil num desenho animado famoso!

O “Reclame Aqui” deve lidar com cada paranóia…!

Obviamente, eu estou mais inclinado a apoiar os pais da primeira situação. Mesmo não duvidando que Marshall e Zuma sempre foram filhotes machos, eu acredito sim que o desenho poderia ser menos “de menino” e contar com uma equipe mais diversa. Porque hoje em dia, apesar dos pesares, uma mulher piloto já é mais amplamente aceito, então o papel da Skye não seria muito inovador. Mas não seria bacana se o Marshall fosse realmente fêmea? E a equipe tivesse uma personagem que fosse uma bombeira?!

É nesse ponto que a Patrulha Canina me decepciona um pouco, embora eu não devesse esperar demais desse desenho. Como eu disse antes (e costumo dizer com frequência) desenhos animados são produções feitas para vender brinquedos. A maioria dos desenhos seriados, pelo menos. O foco principal é esse! Isso vem desde He-Man & Os Mestres do Universo.

E por mais que as equipes de desenhistas queiram ser “pra frentex”, tipo no remake atual de She-Ra, a produção dos canais ainda é encabeçada por um grupo de engravatados cujo objetivo é fazer dinheiro. E essa galera que manda ainda tem ideias anciãs sobre como “desenhos pra meninos vendem brinquedos” e “desenhos para meninas” não.

Por essas e outras, o merchandising do desenho voltado para meninos raramente inclui a Skye. O boneco dela geralmente é mais difícil de encontrar que os outros. E por ser menina todas as coisas na qual ela aprece são rosa. Aí, enquanto eu procurava mais informações sobre essa confusão de gêneros no desenho, percebi que a indignação com essa seletividade dos produtos é internacional! Tem até uma hashtag #WheresSkye (#CadêaSkye).

Cadê a Skye?

Lembrei quando houve o lançamento da nova trilogia de Star Wars, com o Despertar da Força. Houve muita reclamação online e só depois disso que as empresas de brinquedo começaram a lançar mais bonecas da Rey, a protagonista! Coisa meio absurda de se pensar quando você percebe que ela é “A” protagonista dos filmes, mas ainda assim não tinha muitos brinquedos estampados com a sua cara porque “menino não brinca com menina”.

É um trabalho constante esse de desafiar os estereótipos de gênero e permitir que seus filhos gostem das coisas sem se sentir influenciados pela quantidade ou pelas cores do merchandising. Entendo que para produção em massa, quanto mais padronizado, melhor. Mas se queremos diversidade, não só nas ideias como nos produtos que adquirimos, precisamos estar mais atentos e/ou chamar atenção para o caso.

Como pai novato, eu posso estar chegando meio tarde nessa história e não ter muitas novidades. O desenho já está no ar há cinco anos, e muita coisa já deve ter mudado, pelo menos nos produtos de merchandising. Mas ainda assim, acredito que a crítica valha se não para o desenho de agora, pelo menos para os que virão no futuro.

Nessa idade, as crianças ainda não ligam pra este tipo de diferença. Todos brincam de maneira igual e ter um desenho que balanceasse isso, seria o ideal. Infelizmente, apesar de bobinho e bonitinho, Patrulha Canina não é esse desenho.