Capítulo 02 | Habitante

Em meio ao caos que era aquele habitáculo vivia uma pessoa. A luz que dançava e iluminava o caos daquela quitinete revelava também um corpo esparramado na cama tubular. A medida que o dia avançava naquela manhã gelada, os feixes de luz revelavam uma pilha amarrotada de três cobertores felpudos, velhos, manchados e sem estampas. Em uma das extremidades metade uma perna fugia enquanto a outra se escondia do frio.

Subindo pelo volume disforme que se amontoava e camuflava entre os três cobertores repousava um corpo acima do peso. Subindo mais pela cordilheira de cobertores, na outra extremidade da cama, uma cabeça semi-coberta. Apenas metade do rosto estava visível. Notavam-se rugas, barba por fazer, manchas na pele comuns em pessoas velhas. Era um velho, tão velho quanto a quitinete.

A luz do sol finalmente atinge a parte destampada do rosto atingindo os olhos fechados daquele senhor. Em segundos o semblante muda. O corpo se move lentamente, como se um gigante acordasse por baixo da cordilheira de cobertores. O rosto se descobre. Sim, era um velho.

Os olhos se fecham mais, com força, como se não quisessem nunca mais abrir. Mesmo assim, rapidamente os olhos se abrem. As pupilas se dilatam tão rápido quanto podem. Por alguns instantes os olhos miram fixamente para a janela. Uma, duas, três, quatro piscadas. Os olhos não mudam de direção em nenhum momento.

A valsa de luzes dançantes dos buracos da cortina revelam um rosto redondo, pele branca, lábios finos e uma cicatriz que vai da ponta do queixo em direção ao canto esquerdo da boca. As sobrancelhas peludas, grisalhas acima dos olhos castanhos separados por um nariz de tamanho médio, com pelos saindo pelas fossas nasais. Não era uma pessoa careca, pelo contrário, o cabelo quase comprido, cobrindo as grandes orelhas furadas, mas sem brincos. As madeixas castanhas e grisalhas, desgrenhadas e cheias de nós, evidenciam que aquela pessoa já estava na cama há mais de uma dezena de horas.

O gigante adormecido acorda, bufa, esfrega os olhos. As mãos com dedos finos não revelam nenhum adereço. Não havia anel, aliança, nada. Nada que não fossem unhas amareladas e compridas, um pouco roídas. Nos pulsos também nenhum relógio, pulseira ou algo do gênero. Apenas no pulso esquerdo algumas cicatrizes. Lembranças de uma noite de desespero, solidão e nenhuma vocação para o suicídio.

Ele e se vira para cima. Após um suspiro longo e agonizante, quase eterno, as primeiras palavras do dia quebram a harmonia da valsa de gotas de água caindo na pia imunda através de uma pequena frase vomitada tão lenta quanto o suspiro:

- Que merda…