Conversas

Essa noite fui dormir tarde de novo, tinha problemas para pensar. Por mais que eu tenha que acordar cedo para trabalhar é de madrugada que eu sempre resolvo todos os problemas, ouço todos os choros, dou todos os conselhos, me doo para ter ao meu redor pessoas felizes.

Mas dessa vez não estava bancando o super herói. Ninguém estava chorando. O telefone desligado. Finalmente em meses eu sacrifiquei meu sono para pensar em mim.

Um grande amigo me disse para me preocupar mais comigo, que não posso esconder minhas dores para curar machucado alheio. Belo amigo que conseguiu interpretar no meu último texto essa dolorosa verdade. Concluímos juntos que guardar a dor dentro do peito não é o melhor caminho.

Uma nova amiga que mora longe se fez presente em palavras. Na sua voz eu ouvi a preocupação quando eu disse que resolvia meus problemas da maneira mais covarde possível: fora de mim, embriagando-me para poder rir. “Hey, moça, estou há duas semanas sem beber” — vou falar pra ela.

Não lembro a última vez que fiquei tanto tempo sem beber, não estou forçando uma parada, só está indo naturalmente e não sinto falta.

Uma outra vivia tão preocupada comigo, queria me ajudar de qualquer forma, queria que eu externar-se o que eu sentia de qualquer maneira. “Meu amor, eu não sei, só está doendo. Conversa comigo que passa” — e mais uma vez afogava a minha mágoa sem nem procurar saber o que era.

Agradeço tanto a esses que se preocuparam tanto comigo, não me deixaram me perder no sofrimento e muito menos me iludir com a embriagues.

“Porque você parou de escrever, Kaike, você sempre escreveu tão bem”, “escreve, cara, vai te fazer bem pôr pra fora”, “já que você não quer conversar, põe pra fora, vai te fazer bem”.

Como eu sou teimoso, se tivesse ouvido eles antes teria economizado tanto tempo, dinheiro, fígado.

Voltei a ouvir música também, amo música, minhas músicas que ninguém conhece. A que está tocando agora por exemplo sou tão eu. “To sozinho aqui tenho medo de fantasma/ deixa eu dormi na sua casa / essa noite abraçados de conxinha”.

Está tão bom por tudo pra fora, rever as coisas que eu gosto e ouvir meus próprios conselhos. “Você tem que se amar mais” — vivo espalhando por aí. Porque eu não me amei todo esse tempo? Ouvi minhas próprias angústias ao invés de mergulhar de cabeça nas dos outros.

Queria sempre companhia, não conseguia ficar sozinho senão eram lágrimas certas. Lembrei de uma coisa que eu me repetia aos treze anos “você não precisa de ninguém enquanto não conseguir se aturar, se descobrir”, não sei por que me repetia isso, mas bate com a época que comecei a beber. Talvez eu passava pelo mesmo problema.

Esse escuro do quarto, só com a luz do computador acesa, a música tocando no ouvido. Que sensação boa de auto controle. Que sensação boa de tranquilidade.

Kaike, está sendo bom conversar com você

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