Sobre estar só

Sexta a noite. No telefone não cessam as mensagens “vamos sair”. “A noite até que está boa para sair” — penso eu. Melhor não, “na próxima eu vou”. Não faltam amigos para rir, conversas para jogar fora, vidas para resolver — sou muito bom nisso — , piadas que tiram lágrimas dos meus olhos de tão engraçadas.
Então, porque raios, numa sexta feira a noite aqui estou eu escrevendo sobre “estar só”.
Como consigo estar tão sozinho rodeado de amigos verdadeiros. Como debaixo de tantos risos ainda aparecem lágrimas quando todos viram as costas.
Se conhecer é fundamental. Demorei tanto para descobrir o real motivo de tanto desamparo. Olhava ao redor, buscava explicação, perguntava, pedia ajuda. Queria colo.
Refleti para descobri quando isso aconteceu. Reparei que consigo fazer todo mundo feliz, sou sempre procurado quando o coração alheio aperta. E o meu maldito coração que não consigo desafogar dessa contínua mágoa infundada?

Estou descobrindo a resposta aos poucos. Tenho ficado cada vez menos triste.

A resposta é óbvia. Estava aqui na minha face.

Externamente nunca estou sozinho, nem que eu queira, felizmente é um dos males de ser querido.
Internamente eu me isolei. Talvez essa busca incessante de estar sempre junto dos outros esta me afastando de mim mesmo. Talvez não, com certeza.

Sinto falta de ser útil, vejo os dias passarem e eu ainda não fiz nada para salvar o mundo dos males quaisquer que sejam. Ainda não ajudei o menino de rua da minha esquina. Ainda não terminei minha imensa lista de livros. Não comprei aquela minha camisa que eu gostei. Não estou me dando a atenção que me devo.

Sempre fui de estar sozinho e hoje não me dedico mais um tempo, não me cuido, não evoluo. Minhas ideias não saem mais do papel.

Parei de escrever. Goku, porque parei de escrever? Eu amo escrever.

Estar só não é ruim. Ficar só é.

Acabei de lembrar que amo a mim mesmo e está na hora de voltar a me ouvir.

Kaike, voltei.

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