A obsessão em acabar com a pobreza

Quase todos os projetos de desenvolvimento social se concentram em aliviar a pobreza em vez de criar prosperidade. E esse é o problema.

Como podemos aliviar a pobreza extrema? Essa é a pergunta que sustenta um dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU (SDGs) e quase todos os projetos de desenvolvimento social realizados no mundo.

Entretanto, porque a pobreza quase sempre se mostra como uma falta de recursos em comunidades pobres — alimentos, água potável, saneamento, educação, saúde — é razoável teorizar que a pobreza é um problema de recursos. Assim, com base nesse pressuposto, chegamos a conclusão de que uma estratégia focada em levantar os recursos que as comunidades pobres carecem possa resolver a questão. Mas, embora possamos aliviar a pobreza, não fazemos muito além.

Nossas estratégias não irão resultar em um crescimento sustentável porque estamos resolvendo o problema errado!

Considere o exemplo a seguir. Para atingir a SDG 6 — garantir água e saneamento para todos — o governo indiano criou, em 2014, a campanha Clean India, comprometendo-se a fornecer banheiros a mais de 60 milhões de casas até 2019. Acredite ou não, mais de 53% das casas na Índia não possuem banheiros. 80% das mortes nas áreas rurais do país são devidas às condições precárias de saneamento e contaminação da água.

O que aconteceu é que após dois anos e aproximadamente 10 milhões de banheiros instalados, descobriu-se que muitos desses banheiros estavam totalmente abandonados, enquanto muitos outros acabaram se tornando depósitos de grãos e entulhos.

"Nós não pedimos por banheiros, e agora estamos com eles encalhados. Ter um banheiro tão perto de casa não é uma boa ideia. O buraco é muito pequeno e enche rápido, e eu não quero a preocupação de ter que ficar limpando sempre. Fazer minhas necessidades no campo aberto é mais saudável. A brisa lá fora é bem melhor que esse cômodo minúsculo." — Um dos indianos entrevistados

A avaliação do governo apontou que a falta de banheiros era o problema. E foi aí que a estratégia começou a falhar.

Como podemos criar prosperidade?

Primeiro é preciso entender que a erradicação da pobreza não é a mesma coisa que criação de prosperidade. Simplesmente ter um banheiro, mesmo que ele esteja sendo usado, não se é a mesma coisa que viver uma vida próspera. Dizer que a pobreza é um problema de recursos não ajuda a responder a pergunta.

Prosperidade é um problema de processos, não de recursos.

Um processo é a maneira como as pessoas usam seus recursos. Por exemplo, se eu tivesse R$100 (um recurso) e eu escolhesse comprar álcool para alimentar o meu hábito (um processo), o impacto desse recurso na minha vida seria muito diferente do que se eu decidisse investir na criação de uma pequena empresa. Mesmo recurso, processos diferentes, impacto diferente. Para criar prosperidade, os profissionais e programas de desenvolvimento, como os SDGs, devem se concentrar em processos, porque no fundo, a prosperidade está muito mais ligada à mudança de um hábito / comportamento do que com a falta de recursos.

Um bom exemplo aqui no Brasil talvez seja o programa "Bolsa Família". Apesar de achar um excelente programa (e que precisa continuar), minha crítica se baseia no fato de que a pobreza, ao menos pelas lentes do programa, se resume pura e simplesmente a escassez de recursos.

Aumentar a renda de uma família em algumas dezenas ou centenas de reais não necessariamente trará a prosperidade que essa família merece ter.

No fim, o que fica de lição é isso: construir banheiros é a parte fácil do trabalho, o desafio mesmo é convencer as pessoas a usá-los.


Este texto é um mix de tradução e adaptação desse artigo aqui.

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