“Jeitinho”

A primeira vez que eu ouvi um comentário homofônico foi na alfabetização, quando uma colega de turma me perguntou sobre qual era a cor de um lápis e eu disse que era um tom x de azul/verde e ela começou a rir, sem entender eu perguntei o motivo e ela me respondeu que era pelo motivo de eu ser gay e entender sobre cores.

O segundo foi quando um menino me pediu para contar uma piada, mais uma vez não entendi o motivo daquilo e a justificativa era a mesma, se eu era gay, obviamente deveria ser engraçado. E ao longo do tempo os comentários foram evoluindo, porém não se tornaram coisas agressivas e sim sutis, as vezes ouvi uma bicha aqui e um viado ali, mas o mais frequente era sobre o meu “jeitinho”. Mas tanto dentro quanto fora de casa eu recebia rótulos sem a minha permissão e sem o meu consentimento de ser, ninguém nunca perguntou ou me deu tempo de saber o que eu sou, cheguei aos 10/11/12/13/14/15/16/17/18/19/20 anos já rotulado.

Assim que me marcaram com algo que eu não sabia o que era exatamente, conheci um menino meio que por um esbarrão do destino, ele parecia uma versão minha mais velha, mais alegre, mais saltitante e mais iluminada do que eu era naquela época. Mas não conseguimos ser amigos durante muito tempo, pois algumas semanas depois ele foi assassinado pelo seu “jeitinho”. Todos que deram entrevistas falando o quanto ele era engraçado, foram os mesmos que tornaram ele a piada do grupinho e subconscientemente eu criei repulsa em fazer piada, não queria que esse “jeitinho” me matasse, então me dediquei mais e mais a mim, ser o melhor não era questão de status social, mas sim de sobrevivência nos grupos.

Ao longo do tempo me tornei sim o melhor, seja na escola, faculdade, teatro, kung fu e ballet. A cada nova etapa eu estava cada vez mais certo que precisava focar em ser o melhor, para que o “jeitinho” não se tornasse tão evidente. Mas no terceiro ano chutei a porta do armário e transformei o “jeitinho” em proposta parlamentar quando fui escolhido para ser representante da minha cidade na ALERJ, desde esse fato os lugares em que eu transitava não me questionaram mais sobre.

Só que troquei de habitat, um novo que se dizia “aberto as diferenças”, criei diversas expectativas e com isso abaixei a minha guarda e fechei os meus olhos. Com pouco tempo de convivência pude sentir um incomodo, uma falta de se sentir pertencente a um lugar que deveria ser meu? e pouco a pouco fui lendo as entrelinhas de alguns comentários que não estavam se referindo só ao “jeitinho”, mas estavam se referindo ao meu tipo de cabelo, ao fato de ser magro demais, falante demais, esforçado demais? E acabei percebendo que os comentários que ouvia antes não sumiram, simplesmente se aperfeiçoaram e se tornaram sutis ao ponto de poderem ser ditos em rodas de amigos sem “problemas”.

Agora, o fato de eu ter continuado a me dedicar a minha própria excelência não se tornou um muro de proteção aos comentários maldosos e sim alvo para os mesmos, ao ser comparado com um “viado pão com ovo” não o diminui, apenas aceitei o fato e deixei a vida seguir, ao ser instigado a falar mal do outro, me calei e deixei a vida seguir, ao ser classificado de inútil por ter tentado algo novo, me calei e deixei passar. E com isso pude perceber que a vida adulta não é tão diferente da vida no ensino fundamental, só que a realidade da vida é que ela é uma pia que já está cheia de louça suja e existem duas opções a serem tomadas: se colocar junto aos demais ou ser menos do mesmo. Ser igual e se sentir pertencente é algo incrível, mas se machucar para tal fato não vale a pena.

[ C O N T I N U A ]

Esse texto e outros foram inspirados por esse vídeo da Lorely Fox

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