Sensatez insensata

O equilíbrio de João

Homem comum à beira de um existencialismo duvidoso, ser unitário que de repente resolveu questionar valores. 
O tempo todo, João matutava algumas questões:
- O certo e o errado, o bem e o mal, quem os inventou?
- Somos puramente humanos em nossa essência?
João questionava muito os valores humanos e notando padrões de comportamento, percebeu então que haviam semelhanças e divergências, a partir disto começou a tentar entender como tudo isso funcionava. 
Houve uma época em que ele estava curioso e precisava buscar meios de saciar sua curiosidade, então resolveu tirar férias de seu trabalho e adentrar em pequenos nichos onde nunca esteve, fazer parte de outros meios sociais.
Primeira passagem, primeira viagem após trinta e cinco anos de vida, João resolve ir para o Rio de Janeiro. 
Comunidade de Santa Marta — seu primeiro destino — João resolveu conversar com moradores comuns, traficantes e policiais para saber como eles se posicionavam diante da realidade passada pelas pessoas que faziam parte daquele ambiente, João passou um total de quinze dias nesta comunidade dormindo em casas de famílias e fazendo anotações sobre tudo que enxergava e achava interessante lembrar para o momento de formular suas conclusões.
Após todo o seu estudo, nem precisou pegar suas anotações, precisou apenas relembrar de todos os depoimentos e a realidade de todos que pôde conhecer, mas pontos interessantes que João levantou foram:
- Muito do que era comum para os seres humanos que estavam envolvidos com o tráfico, não era comum para João, como por exemplo o atentado à vida.
- Moradores comuns, tinham grande apreço por traficantes e um certo receio de ter policiais por perto, boa parte deles já sofreram abuso por membros da corporação, seus medos eram herança de traumas antigos.
- Policiais acreditavam que estavam protegendo a sociedade — embora para João, todas as ações eram vagas e ilusórias — e tinham grande apreço pela lei e pelo estabelecimento da ordem.
João notou muito mais traços de comportamentos daquele lugar e percebeu que todos eles, embora partilhassem no mesmo ambiente, tinham pontos de vista muitas vezes divergentes.
Depois do experimento, João ainda tinha quinze dias e resolveu se aventurar pelos bairros do Rio de Janeiro, resolveu deixar de lado sua sensatez, dormiu na rua e obstruiu muitas das regras e convenções que tivera em sua infância, João aproveitou os extremos por quinze dias, viveu do lado de lá da linha das regras criadas pela sociedade, para cada indivíduo, para ele próprio.
Como nem tudo são rosas, passaram trinta dias e João então retoma sua rotina, suas questões estavam praticamente respondidas, depois de todos pontos de vista que havia conhecido, todo o tipo de gente que havia convivido mesmo que por pouco tempo, tudo àquilo serviu de aprendizado para que ele enxergasse que a sensatez é variável e relativa aos valores culturais que as pessoas herdam. João também percebeu que seu bom senso o ajudou a entender coisas diferentes (muitas das quais ele não concordava) e manter o equilíbrio em cada momento, também percebeu que quando deixou de lado sua sensatez, pôde viver um pouco no extremo, cantinho desconhecido em que João nunca havia se aventurado!
João sem dúvidas teve diversas conclusões com seu experimento, mas a melhor delas foi que sua sensatez o fazia crescer, ele sabia ser o mais responsável e o mais irresponsável possível, sem intervir na liberdade de nenhum indivíduo, assim, por onde passou, mantinha o equilíbrio de cada situação.