Deus Acima de Todos — O Estado Laico e a Fé Cristã

Recentemente vi uma postagem no Facebook com os seguintes dizeres: “Deus acima de porr* nenhuma, o Estado é laico”. Confesso que fiquei algum tempo lendo essa frase para chegar à alguma conclusão quanto ao o que o autor queria dizer com isso e a quem se destinava a frase.

Conclui o seguinte, o objetivo do autor não é debochar da fé cristã, mas tão somente deixar claro que o Estado é laico e por isso, ele não entende como correto a utilização deste para promover uma fé especifica. Conclui, também, que o destinatário da frase são os próprios cristãos, uma vez que a frase possui pouca valia se for dito para quem já concorda com ela, a ideia é contrapor, ou “lacrar” em cima de, quem entende o oposto.

Infelizmente, a frase não é bem construída, embora eu tenha feito esse esforço para entender a opinião de quem a propaga, para um cristão comum, que como a maioria dos brasileiros, está polarizado, essa frase é interpretada como uma ofensa, e ofensa das graves. Eu mesmo, a primeiro momento, pensei em responder tal post de forma “malcriada”.

Isso porque a fé cristã possui um posicionamento claro quanto à estas coisas, e nesse caso, as Escrituras tendem a corroborar com o slogan de certo candidato à presidência. De fato, seguindo a teologia e as escrituras cristãs, Deus está acima de todos, inclusive do Estado Laico.

Calma, não estou aqui propondo um Estado teocrático, sou eterno defensor da Constituição e do Estado laico. O ponto aqui é: é possível acreditar que o Estado é laico e mesmo assim Deus está acima dele. Não são crenças excludentes!

A posição cristã quanto a Deus é clara, pode ser encontrada em qualquer livro de teologia sistemática, dentre as características de Deus, podemos destacar: asseidade (existência autônoma), imutabilidade, infinitude e soberania. Além disso, a doutrina teísta traz consigo o ensino da providencia. Deus não apenas criou o mundo, mas ele também administra eficazmente as coisas decretadas — Ele governa soberanamente mundo.

O governo divino exercido por Deus pode ser definido como a continua atividade de Deus pela qual Ele rege todas as coisas a fim de garantir a realização do propósito divino. Ou seja, Deus guia todas as coisas da criação, a saber, a gloria do Seu nome. Ele governa: Como um Rei do universo.

Assim, muito embora você, leitor, talvez não seja cristão, e possa argumentar: “tá, mas isso vale para você!” — Sob a ótica do cristianismo, o fato de você não acreditar na soberania de Deus não altera o fato de que ele é soberano. Seria algo do estilo: Deus é soberano, quer você concorde, quer não!

O Apostolo Paulo foi ao limite disso, na carta aos Romanos, no capitulo 13, ele diz: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos.” (Romanos 13:1–2).

Algo interessante sobre isso é que Paulo escreve tal carta entre 47 a 57 d.C, época em que Roma era governada por Nero. Nero foi simplesmente o responsável pelo Incêndio de Roma, em 64 d.C e advinha em quem ele pôs a culpa? Nos cristãos! Dá uma olhada no que Tácito escreveu sobre o evento:

“Assim, começou-se por deter os que confessavam a sua fé; depois pelas indicações que estes deram, toda uma ingente multidão (multitudo ingens) ficaram convictos, não tanto do crime de incêndio, quanto de ódio ao gênero humano. A sua execução foi acompanhada por escárnios, e assim uns, cobertos de peles de animais, eram rasgados pelos dentes dos cães; outros, cravados em cruzes eram queimados ao cair o dia como se fossem luminárias noturnas. Para este espetáculo, Nero cedera os seus próprios jardins e celebrou uns jogos no circo, misturado em vestimenta de auriga entre a plebe ou guiando ele próprio o seu carro. Daí que, ainda castigando os culpáveis e merecedores dos últimos suplícios, tinham-lhes lástima, pois acreditavam que o castigo não era por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade dele próprio.” (Tácito Annales XV.44).

Você pode não acreditar, mas foi a respeito desse governante (Nero) que Paulo disse: aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu (Romanos 13:2). Em linhas gerais, Paulo afirma que por mais cruel que o governante seja, ele apenas está lá por permissão divina, do governo divino de Deus, e que se rebelar contra ele, é se rebelar contra a vontade de Deus.

Jesus já havia falado a respeito, em seu julgamento, dá uma olhada no diálogo entre o Messias e Pilatos: “Você se nega a falar comigo?”, disse Pilatos. “Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?” Jesus respondeu: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima” (João 19:10,11).

Em linhas gerais, trazendo isso para os dias de hoje, as autoridades, os Estados e os governos apenas existem pela permissão do Divino. Isso inclui o Estado laico, a democracia e todas as outras coisas que prezamos tanto. Assim, se temos um Estado laico, é porque Deus, no exercício de seu governo supremo e divino, assim permitiu! O Estado laico só existe porque ele quis! Logo, Ele, de fato, está acima de tudo e de todos, inclusive do Estado laico! Essa é a fé cristã.

Dessa forma, frases como “Deus acima de porr* nenhuma, o Estado é laico” são de pouca utilidade prática em um debate ou dialogo, pois servem apenas para acalorar os ânimos, uma vez que será interpretada como ofensa, afinal trata-se de uma aberração teológica! Por obvio, isso não é desculpa para iniciar-se um Estado teocrático, nem para implantar a fé cristã na cabeça alheia!

Porém não cometa o erro de propagar frases como essas. Para um cristão, Deus não está só acima do Estado, ele está MUITO acima. Ele governa o mundo. Se necessário for, desrespeitamos as leis estatais para obedecer às escrituras, nem que isso nos cause a morte, e a história do cristianismo prova isso — “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos 5:29).

“O objetivo do autor não é debochar da fé cristã, mas tão somente deixar claro que o Estado é laico e por isso, ele não entende como correto a utilização deste para promover uma fé especifica.”

Assim, se o objetivo da frase é realmente aquele que descrevi acima, sugiro uma mudança do discurso. Esse discurso deixa a sensação, em um cristão, de que o Estado está acima de Deus, o que é uma completa afronta a fé. É possível sim ser cristão e defender o Estado laico, tente novas alternativas de discurso, mesmo que você não seja cristão.

Dentre as alternativas, proponho a criação de situações hipotéticas com outras religiões, ou uma análise dos países do oriente médio, onde diversas pessoas morrem por conta dos estados islâmicos, inclusive os cristãos. Mostre que é fundamental que o Estado esteja isento de religiões especificas, e assim vai!

Vamos, juntos, promover o Estado laico. E essa defesa pressupõe que não desrespeitemos as religiões alheias e que argumentemos com bons fundamentos os exacerbamentos daqueles que são muito sinceros em sua fé, porém ignorantes quando ao Estado de Direito. É possível sim ser cristão e um defensor do Estado laico, eu mesmo sou um destes!

Sou cristão, creio que independente de quem ganhe as eleições e independente da sua fé, Deus é soberano e está SIM acima de todos. Porém creio e defendo o Estado laico, pois Deus assim quis! — O Estado é laico e não deve ser usado para promover a minha fé, e nem da sua.

Conto com sua colaboração!

Agora ele está muito acima de qualquer governante, autoridade, poder, líder ou qualquer outro nome não apenas neste mundo, mas também no futuro. Deus submeteu todas as coisas à autoridade de Cristo e o fez cabeça de tudo, para o bem da igreja.
- Efésios 1:21‭-‬22 (NVT)