Anotações sobre arte #2

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Esse texto foi originalmente publicado no meu canal no Telegram, onde semanalmente leio poemas em vez alta e publico esses textos curtinhos pros assinantes.

Um dos piores hábitos que eu incorporei ao meu processo artístico foi o de ponderar.

Enquanto escrevia o walter igor, cometi esse erro diversas vezes: escrever, ponderar o assunto, ver que eu tinha falado bobagem e mexer na poesia pra corrigir.

Esse hábito (ou vício?) de analisar arte sob um viés acadêmico – ou, mais difícil ainda, com lentes objetivas – é na verdade o que mata a arte.

A arte é um exercício de subjetividade – e não existe sentimento certo ou errado; por pior que seja o sentimento, ele não surge da nossa ponderação nem da nossa vontade, ele simplesmente aparece. E o legal é que o artista consiga expressar isso da forma dele, deixando a tarefa de análise pros leitores. Ou pros críticos, principalmente. …


Anotações sobre arte #1

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Esse texto foi originalmente publicado no meu canal no Telegram, onde semanalmente leio poemas em voz alta, publico textos curtos e envio links que considero interessantes pros assinantes.

Eu tenho pra mim que todo artista precisa ser incompetente.

Pra cantar, por exemplo, eu posso tentar imitar o Caetano Veloso. O Caetano já é meio desafinado – e eu sou desafinado também, mas um desafinado diferente do dele. Quando alguém me vir imitando o Caê, vão achar que eu sou original — porque eu sou péssimo em imitar e, na tentativa, acabo passando longe e cantando do meu jeito.

É tentando imitar os outros que um artista cria algo original. Não porque ele tinha intenção de ser original, mas porque ele foi incompetente demais pra imitar um mestre imperfeito com exatidão. E, na arte, a incompetência é recompensada, porque é ela quem origina um traço único. …


Um poema em voz alta

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Fotografia: Amanda Melo

Esse poema foi lido dia 31/08/2020 aos assinantes do meu canal no Telegram, que pode ser assinado aqui.

Ajo com calma após o estrago:
observando o sangue escorrendo da minha mão
primeiro analiso a faca que abriu o buraco;
vendo que permanece intacta e limpa,
a devolvo à gaveta de sacolas plásticas e, líquida,
espera-se a plaqueta, restando glóbulos vermelhos
onde distingo hemácias e hemoglobina;
com a outra mão, toco a ferida grave:
cicatriza rápido? Agora não, só depois que arde.
E se arde demais basta apertar bastante,
que se não deixa de ser dor pelo menos vira arte.

Gostou do poema? Você pode deixar de 1 a 50 palminhas.

Sou autor do livro walter igor e quinzenalmente escrevo pra newsletter Um gole de poesia, que utiliza poemas como ponto de partida pra artigos abordando as temáticas relacionadas.

About

Kalew Nicholas

Escrevo coisas de qualidade duvidosa desde que aprendi a assinar meu nome. | kalewnicholas.com/portfolio

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