Subiu na construção como se fosse máquina

Um poema (e um recado importante no fim da página)

Tá em áudio também.

O sabor do choro que sucede a estafa é diferente.
Com sabor de sangue de invisíveis feridas
e notas de ódio anticorporativista
ele difere do choro comum:
não é como o da lágrima que escorre
quando se recebe a notícia duma morte
tampouco como choro do sangue que corre
seja na hemorragia interna ou em simples corte.

Seu gosto se forma quando você percebe
que não consegue preencher mais uma planilha
que não são palavras o que tu escreve
mas só folhas sobre o buraco da tua armadilha
quando percebe que são infinitos os relatórios
que são intermináveis os segundos do relógio
que amanhã você ainda precisa de dinheiro
que semana que vem ainda precisará de comida
que no fim do mês chegam contas pelos Correios
e que nada disso do que tu vive é vida

e nessa hora seus olhos umedecem
sua boca seca sua garganta arranha
cê engole em seco cê esquece a grana
adiando pro fim da tarde talvez pro banho
quando lágrimas se confundem
com a água que sai do cano
e quando por fim o gosto não nega
você chora de soluçar e só aí se entrega:

o gosto da estafa é diferente de outros choros que a vida leva.

Mas amanhã você acorda pra ir pro trabalho
pode ficar tranks se acordar no horário
mesmo com os olhos ardendo e ainda inchados

com rotina intacta

nós somos tão hilários


Esse poema faz parte do meu livro a ser publicado em fevereiro de 2019. Pensei em publicar pela Amazon, mas eu nunca recebo dinheiro nenhum deles (a grana fica presa porque tenho preguiça de fazer uma conta bancária internacional). Então vou distribuir a versão digital do livro de graça pela minha newsletter, é só se inscrever que mês que vem eu mando: