Solidão
Estamos todos imersos numa solidão de gente. A solidão é viciante, mas, não é necessário a todo instante mergulhar-se nela para viver, pois é muito bom viver com pessoas e sentir a vida fluir!

Ao tentar fugir da solidão, pode sucumbir-se a um estado paranoico e decadente pois, buscar desenfreadamente algo sólido para se apoiar pode te iludir ao incapacitar de ver a própria fragilidade da sua existência.
Isso é feito (in)conscientemente de várias formas: através de vícios (uso de drogas ilícitas, medicamentalização, álcool, festas, cigarro, jogos, sexo, pornografia, delivery, compras online, seriados da Netflix, Youtube, ler compulsivamente, constantes reclamações da vida e de tudo que a constitui etc.), através do trabalho (vive para o trabalho, está sempre ocupado e acredita que a empresa não vive sem você sendo que, no fundo, todos nós sabemos que a relação de dependência não parte da empresa), através dos estudos (gastasse sempre uma hora a mais para revisar algo que nada tem a ver com o estudo, ou tem mania de perfeccionismo, corroborando com o bom desgaste do convívio entre os colegas de sala, em troco de nada), ou através de relacionamento amoroso (o trágico meio de se relacionar exclusivamente por necessidade, para preencher vazios deixados por outro alguém, que normalmente é um pai, uma mãe ou algum Ex).
O que as vezes, impossível de entender, é que essas formas de “preenchimento” da solidão irão resultar em catástrofes, piores do que aquelas que se imaginava evitar.

É bem verdade que esse tipo de solidão vale, especialmente, para as metrópoles, megalópoles, grandes centros mundiais. Cidades muito povoadas, onde a noite tem tanta vida quanto o dia, onde há muita concentração de pessoas que estão submetidas a rotinas desgastantes e, as vezes sem sentido algum (motoristas de Uber, entregadores de Ifood, funcionários em escritórios, vendedores de shopping etc. Quantos dizem estar realmente satisfeitos com o que fazem? Quantos dizem saber o que realmente queriam estar fazendo naquele instante? As respostas são, em geral, fundamentadas na coerção e em reforços negativos como contas para pagar e terceiros dependem deles…Sem julgamentos, okay? É apenas uma realidade, nem boa e nem ruim).
Pessoas que sobrevivem com pressa, com urgência para fazer coisas, para tentar resolver problemas, quase sempre, sozinhas.

O fracasso é iminente, já que a solidão é algo permanente e ao mesmo tempo inexistente, que está o tempo todo presente e ausente. Ela te obriga a fazer algo, mas, o problema é: fazer o que? Qual o norte para manter-se lúcido e não se perder? Por isso é importante ter, minimamente, uma certa noção de solidão, afinal, quando ela te derrubar, você possa ter um fio de esperança para se reerguer.
Existem três tipos de solidão que dão contornos tão perversos de mundo que acabam destruindo toda e qualquer perspectiva de mundo novo para pessoas comum, tipo você ou eu.

A primeira é a solidão existencial. Todo ser humano é, em algum grau, solitário (o nascimento e o falecimento são experiências, exclusivamente, solitárias) perante ao mundo. Contudo, o ser humano depende da relação que ele faz com o mundo, porque ninguém irá socorrê-lo ou determina-lo em qualquer instância ou aspecto (o bebê precisa chorar para avisar que tem fome ou fez caca; se você quer uma bolsa de estudos, um emprego, sair com uma pessoa, tem que ir atrás e procurar se informar sobre, não tem jeito). O mundo se dilui no âmago do ser humano e a todo instante ele é reconstituído nas circunstâncias das escolhas, ações e reações do próprio indivíduo.
A segunda, a solidão social, já é algo um pouco mais perigoso. Ela funciona como uma praga que se alastra sorrateiramente pela sua cabeça e transforma a sua percepção de sociedade em algo desconexo, fazendo com que você não se encaixa mais na “bolha social”. De repente, você se isola com a sensação de que tudo que você fala não é escutado ou as pessoas não te entendem; você vai perdendo a relevância e pouco a pouco não é mais chamado para as “festinhas”; torna-se antipático, desinteressante e sem graça para o grupo do qual você fazia parte. Isso gera uma angústia descomunal, daí, você mesmo começa a fazer as escolhas, arbitrariamente seguindo a solidão existencial, ou seja, de uma forma negativa, porque no fundo, provavelmente você desistiu de procurar algo que de sentido à sua vida, que lhe traga alguma alegria, pois, você não se sente mais pertencente e quanto mais o tempo passa, menos o mundo, aparentemente, muda.
Sem perceber, você vai achar um máximo maratonar séries da Netflix, reclamar no Twitter sobre tudo que você não sabe, fazer textão no Facebook e chorar, compulsivamente, ao rever as suas fotos do Instagram de bons momentos que você vivenciou em algum momento ou ao visualizar os bons momentos de outras pessoas.

A terceira solidão é a amorosa. Essa, assim como a social, pode causar um estrago no indivíduo de proporções inimagináveis. As pessoas que vivenciam/vivenciaram tal sentimento sabem do que eu digo.
Não há desalento maior do que esperar ou ir atrás da pessoa amada, sendo que esse amor jamais será correspondido por N razões. Entretanto, o que mais corrobora para a solidão amorosa seria a falta de reciprocidade amorosa.
— Ninguém é obrigado a amar o outro só porque é o objeto de amor de alguém, faz parte da vida! Você pode ser o objeto de amor de uma pessoa hoje e amanhã pode estar amando perdidamente alguém e também não ser correspondido, só isso! Encontros e Desencontros são normais na vida de qualquer um, vivamos com isso.
O problema é “como sustentar essa solidão?”. Na solidão social você tem os seus interesses mais dissipados, difusos pelas atribuições sociais (trabalho, estudos, lazer, saúde, dinheiro, política etc.), aqui não. O interesse é concentrado em uma pessoa, na maioria dos casos. Por isso, o problema pode se tornar mais grave. Todas as formas que você tem de existir podem ser forçadas a girar em torno da pessoa amada que, por algum motivo, não está te correspondendo. Suas conversas tornam-se repetitivas e enfadonhas (afinal, o tema é sempre o mesmo); você torna o lazer um mero momento de “caça”, cuja única finalidade é encontrar alguém para substituir a pessoa amada que não te corresponde (depois, não reclama na orelha dos outros ou na timeline alheia que homem nenhum presta, que toda mulher é safada, que ninguém tá nem aí com nada! Menos, por favor! Guarde para você ou para o seu psicólogo as cagadas que você faz toda vez que você sai para se “divertir” com as pessoas e seja alguém mais maduro(a) para você e para a sociedade); a profissão bem estabelecida antes da solidão amorosa agora ganhou ruínas e abriu espaço para um segundo emprego, o de detetive particular (stalkear a pessoa amada é uma forma de investigar a vida alheia e, honestamente, espero que a remuneração seja bem boa, pois é uma profissão do cão).
Tudo isso, porque não aguenta viver amando quem não te corresponde e, na minha humilde opinião isso definitivamente não é amor.

A solidão é um redemoinho emocional que serve de combustível para o estresse — entende-se estresse como uma situação de ameaça, que não se pode fugir, que te obriga, te força, a entrar em confronto e, ao mesmo tempo, te gera ansiedade (forte vontade de não sei o que). Senão confrontar, senão pedir ajudar, senão gritar por SOCORRO, o mais provável é que as patologias, distúrbios mórbidos, resolvam por você. Síndromes psicóticas carregadas de alucinações, delírios, comportamentos claramente bizarros (fala e risos imotivados, estilo Coringa) ou Síndromes paranoides repletas de alucinações persecutório, desorganização da vida mental e comportamental. Ambas causando um estado megalomaníaco no qual a perda de contato com a realidade (dimensão central da psicose) acaba sendo a ÚNICA coisa sólida para te manter existindo.
Para Nietzsche, a solidão é entendida como o abrigo do doente e, ao mesmo tempo, o abrigo contra o doente. E para você?