Eu comecei a falar a língua dos mudos, na tentativa de desafogar nós dois de todas as palavras entaladas em cada noite silenciada. Não brigada, mas também não sonhada. Percebi, por bem ou por mal – na verdade por péssimo – que não se colhem flores de onde não cultivou-se as semestres passadas. Resolvi, então, andar sem ti, de pés desnudos pra sentir em cada nervo, escorrendo nas solas e por entre os dedos, todo o caminho onde minhas próprias pernas podiam me levar. Eu que já nem sabia que parte minha era tua ou nascida de mim. Nessa mistura fora das leis da física, pois de certo nossos corpos chegavam a se fundir quando as quatro paredes viravam um universo que não esse. Universo de nós dois, onde era normal se perder no vácuo de si mesmo. Logo eu, que sempre gostei que a gente transbordasse, me acomodei a viver nesse vácuo, onde os nossos gritos, bons ou ruins, não podiam ser ouvidos.
A questão é: eu nunca falei a língua dos mudos. Nossos silêncios de entendimento subtendido já ficavam escassos demais, eu precisava gritar que eu existia por mim mesma, pq se grito, saio da proteção do refúgio que fostes por tanto tempo. Nesse lugar fora da realidade, estávamos prestes a sermos engolidos por nós mesmos. Foi no caminhar sem nossos dedos entrelaçados, que usávamos como segurança pra não cair em queda livre, e sem o ritmo do teu corpo a guiar o meu, que pude perceber que nenhuma felicidade é construída juntos quando estamos os dois pela metade. Lembrei que te escrevi:
“ Fato 1. É impossível cultivar eternidades; 2. A felicidade é momentânea ; 3. O intento de chegar à constância daquilo que é efêmero nos deixa um pouco mais perto do inalcançável.”
Quando eu não sabia que nada vale a pena a qualquer custo. E o preço de te perder por quem tu és custa muito mais do que te perder ao meu lado. Foi sentindo a felicidade por si só, que me vi sem vontade de tirar um pedacinho sequer de ti pra me fazer um pouco mais completa. Tive vontade de nos ver parando de catar migalhas de uma vida passada, e sair assim da petrificação do tempo e do espaço. Deixando de imacular nosso amor, pude te amar de dentro pra fora, de todas as formas e em todas as direções, pra quem sabe em algum desses vetores poder te encontrar de novo um dia.
