Sobre O Apartamento e as trabalhadoras invisíveis

Vi o filme O Apartamento, ontem, e é uma pancada violenta sobre abuso contra mulher no Irã. Sendo que o título em francês e em outras línguas, é O Cliente. A tradução brasileira apaga esse homem do título, que sugere a questão da prostituição, central ali: uma mulher casada, Rana (Taraneh Allidousti), é atacada por ser confundida com uma prostituta. E o crime grave do tal cliente, claro, foi ofender a honra de seu marido, Emad (Shahab Hosseini).

Desde o início, essa outra mulher é a perigosa, mas o filme só vai dando pistas sobre ela. E a gente pode ir encaixando o quebra-cabeça pra saber que o problema não é ela, mas certos clientes que abusam de poder, da fragilidade dela, do fato dela não ter a tutela de nenhum outro homem pra se cuidar. Muito tenso. E não acho que essa história seria diferente aqui, a “indenfensabilidade” da mulher que se prostitui, a indiferença dos vizinhos contra ela, até o gaslighting feito indiscriminadamente contra ela, a louca, uma mulher “com problemas”. E que recebia “muitos clientes”. Ela não pode recorrer a ninguém. Seus objetos abandonados nesse apartamento nos contam sua história, mas “não se pode confiar no que ela diz”.

Em farsi (persa), o nome significa “o vendedor”, referência direta à peça A morte do caixeiro viajante, encenada pelo casal — eles trabalham com “cultura”. A diretora é uma mulher, mas quem vai negociar com a censura é o marido, Emad — a peça é tão picotada que os atores riem da fala da personagem prostituta que diz estar nua, mas a atriz deve estar coberta dos pés à cabeça. Em um recurso de mise en abyme, a peça dentro do filme nos dá mais pistas sobre essa história de mulheres orbitando em torno do marido ou do cliente.

(ainda digerindo)

O Apartamento (Forushande), de Asghar Faharid, 2016.