O velho e o novo em Elie Saab

Por Kamylla Silva

Elie Saab sabia o que queria ser quando crescesse desde muito cedo. Aos nove anos, o estilista libanês já transformava toalhas de mesa e cortinas em vestidos para suas irmãs. Ao longo dos anos, ele aprimorou suas técnicas de costura sozinho e começou a produzir peças para as mulheres da vizinhança. Não demorou a ficar conhecido no subúrbio de Beirute.

Em 1981, aos 17 anos, Saab se mudou para Paris para estudar design de moda. No entanto, sua temporada na capital francesa foi curta: no ano seguinte, ele decidiu largar a faculdade e voltar para Beirute para criar seu próprio ateliê. Quando as portas da empresa se abriram, ele contava com o apoio de 15 trabalhadores para transformar sua primeira coleção em realidade.

Nessa época, o estilista já criava seus trajes de gala ricos em detalhes. Seu foco eram os vestidos de noiva, sempre confeccionados em tecidos de qualidade e adornados com pérolas, cristais e bordados para lá de complexos. Em pouco tempo, seus designs ficaram conhecidos entre a alta sociedade libanesa e atravessaram fronteiras.

Em 1997, Saab se tornou o primeiro estilista estrangeiro a virar membro da Câmara Nacional de Moda Italiana. No mesmo ano, ele fez um desfile em Roma — era a primeira vez que isso acontecia fora do Líbano. Pouco tempo depois, criou suas primeiras linhas de roupas prêt-a-porter e acessórios. Também assinou um contrato para desenvolver cosméticos e perfumes.

Vestido usado por Halle Berry no Oscar de 2002 deixou o estilista famoso

Os acontecimentos dos anos seguintes foram determinantes para torna-lo mundialmente famoso. Em 1999, a Rainha Rania da Jordânia escolheu um dos modelos de Saab para a sua coroação. Um ano mais tarde, a Federação Francesa de Moda o convidou para apresentar suas coleções de alta costura e prêt-a-porter; eventualmente, ele se tornaria um membro oficial.

Contudo, o evento responsável por tornar as criações de Elie Saab realmente conhecidas por mulheres de todo o planeta foi o Oscar de 2002. Naquele ano, Halle Berry aceitou o prêmio de Melhor Atriz por sua performance no filme A Última Ceia usando um vestido que entrou para diversas listas de peças icônicas a atravessarem o tapete vermelho da cerimônia (as de Cosmopolitan e The Telegraph são alguns exemplos).

Em 2006, Saab lançou a sua primeira coleção prê-a-porter de primavera-verão em Paris. Desde então, ele faz questão de apresentar essas peças na cidade. Mesmo assim, suas principais inspirações na hora de desenhar roupas continuam sendo a arquitetura de Beirute e a cultura árabe em geral. Saber disso é essencial para entender suas criações.


Amazônia inspira espetáculo glamouroso

Para a coleção de primavera-verão 2018 que apresentou na última edição da Paris Fashion Week, Elie Saab se inspirou nas cores e texturas da Amazônia. “Sou eu revivendo meus anos 90. É uma grande celebração de roupas para se usar durante o dia, com cores frescas cheias de vida, ar sexy e muitas pernas à mostra”, explicou o estilista.

Quem se espremeu no Grand Palais para acompanhar o desfile já podia ter uma boa ideia do que viria pela frente antes mesmo da primeira modelo cruzar a passarela. Nos telões ao fundo, grandes folhas verdes tropicais entregavam que a coleção tinha influência da natureza. Aliás, o calor que fazia naquele momento deixou o cenário bem convincente.

A trilha sonora anunciou o início do desfile e ficou responsável por dar um ar urbano à apresentação de pouco mais de 12 minutos. Para os gringos, a faixa mais marcante foi Glue, criação de música eletrônica da dupla irlandesa Bicep. Já para os brasileiros, o que se destacou foi o funk nacional, com Aviãozinho, de Sandy & As Travessas.

O que se pôde observar na passarela foi um festival de peças fluídas. Mesmo as produzidas em tecidos mais pesados conseguiam transmitir a leveza que tanto buscamos nas estações mais quentes. Porém, quase todas as modelos tinham suas silhuetas marcadas por cintos — que, realmente, pareciam ter vindo da década de 1990.

Saab parece ter se inspirado na diversidade natural para a seleção dos materiais usados para dar vida a essa coleção. No ecossistema criado pelo estilista, tecidos como tule, renda e chiffon convivem em perfeita harmonia com o couro. O resultado são cafetãs, vestidos, macacões, jaquetas, camisetas, saias e calças capazes de agradar a qualquer um.

Cores vibrantes (como verde, amarelo, azul e vermelho) dominaram os looks, mas também havia espaço para tons neutros (como preto, branco e bege). A maioria das peças estampadas remetia à natureza, com reproduções de padrões das peles das cobras e de folhagens. Muitas modelos apresentaram produções monocromáticos ou com degradês.

A proposta eclética que orientou a escolha dos tecidos também parece ter sido determinante na hora de decidir como seriam os acabamentos das peças. Além dos bordados complexos — que, vale lembrar, é uma das grandes características dos trabalhos de Saab –, franjas, tachas e botões ajudaram a levar os looks inspirados pela floresta para os habitantes da cidade.

Com exceção de alguns cintos e das bolsas, todos os acessórios exibidos ao longo do desfile eram chamativos. Óculos, brincos e chapéus eram realmente grandes e deixavam as produções mais glamourosas. As sandálias usadas pelas modelos se agarravam em seus tornozelos e a maioria tinha saltos altíssimos — inclusive, algumas tiveram dificuldades para se equilibrar sobre eles.

Por sua vez, as produções de cabelo e maquiagem eram bem naturais. Todas as modelos desfilaram com ares distantes, o que ajudou a reforçar o ar sexy chic pelo qual o estilista é conhecido em suas criações do tipo prêt-a-porter. As pernas infindáveis reveladas pelos comprimentos curtos e escondidas pelas franjas compridas remetiam às amazonas da mitologia grega e, sem dúvidas, conquistaram as glamazons presentes na plateia.

Fotos: Fashion Network