Um café por uma história
Qual a saudade que a pessoa ao seu lado carrega?
Saudade é, sem dúvidas, uma das palavras mais odiadas dos tradutores da língua portuguesa. Afinal, só quem fala nosso português consegue entender direitinho o significado deste vocábulo tão ambíguo que é poesia por si só. E são nesses sentimentos, ora alegres, ora amargos, em que a Josefa foi mergulhar com uma simples provocação na praça da Alfândega: do que você mais sente falta?

O embaraço refreava o ímpeto de uma conversa com um anônimo oferecendo um café por uma história. Mas foi justamente isso que criava um sentimento nostálgico em Vytor Ferro, alagoano de Arapiraca. A caminho do Uruguai, o apresentador da TV Record no nordeste lamentava o pouco contato com pessoas antes próximas. É curioso de se pensar que a mesma tecnologia que aproxima, afasta tanto. Ele mesmo tem amigos com quem conversa bastante, mas vê em raras ocasiões. Sua pele morena, marcada pelo sol nordestino, se enruga ao lembrar que um desses amigos já se foi. Uma morte violenta. Os encontros, raros. Esta é outra das saudades do alagoano: o prazer de se andar na rua sem medo.
Esta mesma falta aproxima Vytor de Nilton Lima, um estudante de fonoaudiologia, bombeiro, saxofonista e “de tudo um pouco”. Natural de Porto Velho, Rondônia, quer de volta os “tempos inocentes da infância, quando as coisas eram mais simples”. Só que simplicidade, apesar de ser o termo adotado por ele, não parece ser o mais correto para descrever sua história.
Cresceu precocemente por conta da exigência do padrasto e, logo aos 14, saiu de casa para não mais voltar. Trabalhando em obras, desceu pelo mapa do Brasil até chegar no Mato Grosso do Sul. Lá, voltou a estudar. Até passou no Instituto Federal para fonoaudiologia. Contudo, o curso fechou pouco tempo depois. Os professores lhe disseram que o Rio Grande do Sul era muito bom — e que alguns deles seguiriam para Santa Maria. Decidido, arrumou as malas novamente.
Dormia em rodoviárias, fazia qualquer coisa para sobreviver. Lembra que ao ser expulso dos bancos de espera de ônibus, em Campo Mourão/PR, foi encaminhado para um albergue. Lá, dividindo espaço com um deficiente auditivo e um mendigo, conseguiu uma passagem para a capital de Santa Catarina. Em 2009, chegou em Torres, quase 10 anos depois do início de sua odisseia. Hoje, além da formatura, sonha em se casar. A solidão lhe incomoda tanto quanto a falta da estrutura familiar que nunca teve. E mesmo assim, insiste em seguir sorrindo. A persistência é inerente ao seu ser.
Minutos antes, Anderson Fraga, também bastante jovem, repetia um mantra calejado, mas de grande significado para si: “eu quero, eu posso, eu consigo”. Morador de rua há 10 anos, é rejeitado pela sua família, que o acusa de ser usuário de crack. Anderson jura usar apenas maconha. Em seu corpo, uma camisa simples, o banho tomado, cabelo bem cortado e a falta de uma família. Antes de sentar para tomar um café, seguia para a rodoviária porque soube que seu irmão havia sido morto 3 dias antes, em Tramandaí. Outra dor que tentava enfrentar, junto com a incerteza da vida de sua mãe.
Chegou ao ponto de tentar o suicídio. Exibe as cicatrizes que três facadas lhe deixaram no peito, próximo ao coração. Na barriga, um corte enorme rasgou-a por inteiro. Sente saudades de quando suas únicas preocupações eram vencer um jogo de futebol na rua simples em que crescera, em Viamão. Sobrevive com pequenos bicos. O mais longo durou 10 meses, como ajudante no Zaffari. Mas expulso e rejeitado por quem mais queria ser aceito, não vê sentido no trabalho.
Com pressa, se despede dizendo ainda ter esperança de se reconciliar com a irmã — único elo que restou — e, quem sabe, descobrir que a mãe está viva e esperando por ele. Quem sabe. O trocadilho que a professora do fundamental fazia com seu sobrenome, trocando o “F” pelo “P”, soa como uma profecia.
A finitude desse ser tão doce que chamamos de mãe lamentada por Anderson é o mesmo pesar que carrega outro dos passantes da Rua da Praia. Ederson Pizio, de 38 anos, encara esta perda há três. A morte da mãe, que descobriu tardiamente um câncer no pâncreas, trouxe um silêncio difícil de encarar. Não fala sobre si com ninguém desde então. Os tempos tempos alegres de outrora eram pontuados por confidências nos cafés da tarde com sua progenitora.
Certas coisas não se falam para os amigos. Ele joga essas palavras na mesa com riso nervoso. Queria que alguém lhe escutasse. Separou-se esposa que lhe acompanhara por 20 anos depois dos seis derradeiros meses da mãe. Só não foi antes para não causar esse desgosto em sua melhor amiga.
O pai também se foi, apenas um ano e meio depois de tudo. Ataque cardíaco. Repentinamente. Ederson parece ter se agarrado ao significado desta palavra, pois a pronuncia como um murmúrio.

Nas voltas da vida, casou-se de novo. O pai chegou a conhecê-lá. A filha, que já estava na barriga da esposa quando ele a conheceu, vai começar a ir para a escola. Os seus óculos muito escuros não conseguem esconder sua emoção. Num desvio de cabeça, diz precisar ir, mas não revela para onde. Agradece. Profundamente. Talvez porque, naquela tarde, ele conseguiu falar.
Estranho como um ato tão simples se torna tão poderoso e carregado de significado. Renata Veleda é cantora no coral da UFRGS. Nem precisaria dizer, pois a sua camisa já trazia essa informação. Com o sorriso educado de quem acabou de conhecer outra pessoa, deixa-se dizer que isso a faz conhecer diversas pessoas. Mas não traz amigos, necessariamente.
A saudade que queria expor é de apenas um ano atrás. A vó se fora. As últimas lembranças tentam ser esquecidas como as da avó, que carregava consigo o Alzheimer. renata mal consegue expor em detalhes os almoços de domingo, quando a família se reunia em torno dos avós. O churrasco vinha com as risadas que a mãe de sua mãe provocava. Hoje, só as lembranças daquela casa cheia. O motivo é a nova moradora. O avô, aos 74 anos, juntou-se novamente com uma mulher, mais ou menos da mesma idade.
A família decidiu que isso era inaceitável, principalmente em tão pouco tempo. Renata tenta oferecer um pouco de compreensão ao velho. Afinal, saber que a pessoa que sempre a amou e cuidou não tem mais a mínima ideia de quem você é, provoca um sentimento de vazio indescritível. Concluiu que, para o avô, sua esposa já deixara aquela casa muito antes de ter-se ido fisicamente. Entretanto, era justamente a memória — a causa de tudo isso — que não deixa se reconciliar com ele. Avós são só aqueles ali, explica com a voz baixa, quase numa confissão.
Mas nem toda saudade é irrecuperável. Doralino Di Souza tem saudade dos tempos em que os filhos eram pequenos. O primeiro, já com 21 anos, veio quando ele ainda tinha 22. E contou mais cinco até vir a menina. A infância das crianças lhe foi narrada pela esposa. Não consegue lembrar de muitos momentos cotidianos que presenciou. E gostaria de tê-los de volta.
Os óculos intelectuais apontavam para o chão. Em seu rosto, uma expressão pensativa. Doralino é cronista. Junto com outra das tantas pessoas ali de passagem, tentava definir um sentido para saudade. Algo próprio de cada pessoa, pois só é sentido naquela intensidade por ela. E ninguém mais. O jovem, identificado apenas como John Old Man, recitou de cabeça o que diz ser um poema seu. Muitas das partes pareciam terem sido criadas ali, naquela conversa. Uma de suas estrofes resumiu muitas das histórias contadas naquela mesa e traduzidas aqui.
“Lembrar não é reviver. É querer”.
Doralino sorri e, como os outros antes dele, agradece o café e vai-se embora. Talvez abrace os filhos mais forte ao chegar em Igrejinha. Talvez escreva sobre aquela tarde. Talvez até gostasse de ouvir um conceito menos melancólico oferecido por Maria Helena, uma senhora de 85 anos que passara ali um par de horas antes, apenas por curiosidade. “Infeliz de quem não tiver nada para sentir saudade”.
Fico com ela.