Azeviche paulistana

Para não fugir do clichê, São Paulo amanheceu fria e nublada, uma típica manhã na metrópole. Na noite anterior, eu havia conhecido o surpreendente trabalho de Stefano Bollani, Que bom, cujas participações de Caetano e João Bosco tornariam o álbum harmoniosamente mais brasileiro do que eu esperava. Coloquei Bollani novamente para entoar pela casa e fiquei pensando sobre as questões que me sobressaltavam desde o domingo, enquanto tomava meu café americano de todas as manhãs.

Escrever é viver em voz alta, já dizia Rubem Braga, de quem herdei a tagarelice da crônica. A de hoje, particularmente, nascerá de uma epifania, desses assombros de quando o universo do outro me toca, como a música de Bollani ou a exposição que comemora o centenário de Athos Bulcão, sob curadoria do CCBB e que tive o prazer de visitar dia desses. Para quem não conhece, Athos foi um artista plástico brasileiro que teve a honra de ser assistente de Cândido Portinari, com quem aprendeu muito sobre o ofício. Mais tarde, tornou-se imortalizado através de seus painéis em azulejo espalhados por Brasília e por todo o Brasil. Numa das suas aquarelas da série “Carnaval”, na exposição, há uma dedicatória para um amigo, relembrando aquelas lindas festas que já passaram juntos, numa época áurea da suas vidas. Como as obras não podiam ser fotografadas (em tese, já que vi muita gente fotografando, mas obedeci à plaquinha), fiquei com a lembrança do tom nostálgico de quem, já no fim da vida, sente saudades do que não pode mais viver.

Saí de lá com a sensação do pertencimento pela existência. A vida, esta que sentimos tão nossa, é uma armadilha. Não há preparação para o que acontecerá com cada um de nós. Cada um vai aprendendo a viver com as limitações que os anos vão nos oferecer. Alguns sentirão primeiro as limitações financeiras de uma vida em que não se construiu patrimônio. Outros, sentirão logo cedo as limitações físicas do sedentarismo. Há os que viverão com as limitações das próprias frustrações, aquelas que o dinheiro não compra. Alguns mais ficarão doentes, mesmo que se cuidem muito. A genética é implacável! Outros, como eu, precisam ter muito cuidado para não viver das doces lembranças de um passado que não poderá ser para sempre presente. Tal qual o nostálgico Athos. Para mim, aquela gravura que era para ser apenas uma aquarela em uma exposição, tornou-se uma questão filosófica. Até que ponto a memória não nos é traiçoeira para uma velhice plena e feliz? As pessoas que perdem a capacidade de lembrar da própria história seriam mais afortunadas que as que mantêm a consciência de que a vida está chegando ao fim? Certa vez, li a reportagem de um geneticista descrevendo o assombro que o causava tantas pessoas quererem trazer milhares de vidas ao mundo a qualquer custo, passando por tantos procedimentos, inseminações, dívidas, noites em claro. Falava sobre isso, porque havia se dado conta do quão doloroso pode ser o final da existência do ser humano! E quando pensamos em trazer mais almas a esse mundo, pensamos sobre isso? Sobre o sofrimento que todo ser humano pode vir a passar na vida?

Curiosamente, no mesmo final de semana da minha epifania, fui assistir a Chaplin, o musical. O texto, traduzido da obra original por Miguel Falabella, tem a produção brasileira de Cláudia Raia, com Jarbas Homem de Melo no papel principal. Uma montagem louvável para os padrões tupiniquins, como tudo o que eles colocam a mão. O dom de transformar água em vinho. Nunca li nada sobre a biografia de Chaplin e, pelo que entendi, ele teve uma infância difícil, um pai alcoólatra, uma mãe com Alzheimer, foi mandado para um orfanato com o irmão, que o acompanhou durante a maior parte da vida. Mais tarde, descoberto por um produtor americano, quando trabalhava num teatro londrino, foi convidado a atuar em Hollywood, onde teve um começo de carreira difícil, até criar a personagem do vagabundo, que o imortalizou. Chaplin tinha dificuldade em lidar com seus problemas. Não visitava a mãe no hospital, não soube ficar ao lado da esposa quando o primeiro filho nasceu morto. Dizia que preferia viver a vida de sua personagem, pois assim poderia criar sempre finais felizes para as histórias. Chaplin vivia no futuro, por não suportar o passado.

Depois de ver a exposição de Athos Bulcão e assistir ao musical, eu, entregue ao azeviche das manhãs paulistanas, penso aqui com minha xícara quase fria de café americano: o que teriam em comum? Ambos viveram, a seu modo, a nostalgia. O problema não é o medo da morte, mas a vontade da vida! E como seria se a caixinha de lembranças do passado não ficasse tão presente enquanto envelhecemos? Ou se não criássemos futuros mirabolantes, nos quais muito provavelmente não iremos viver?

Imagino-me agora como personagem daquele filme de Claude Lelouch, sendo abraçada por Amma, a mensageira espiritual hindu, chamada por muitos de o Avatar de Deus na Terra. Amma passa horas apenas abraçando as pessoas e ouvindo os seus desejos. Amma acaricia todos que a procuram, porque sua religião é o Amor. É a mãe dos desconsolados, dos aflitos, dos amedrontados. A santa dos abraços. Amma cura doenças, dizem. Mas, em seu abraço, moraria quem sabe o consolo que busco para minhas questões sem resposta. Amma pediria que eu vivesse meu presente da forma mais sublime que eu pudesse fazê-lo. E que eu não me preocupasse tanto com o futuro (que ainda não existe, como o momento seguinte a esta escrita), nem com o passado (que também não mais existe, porque já se foi, como o início deste texto e a xícara de café americano, onde tudo começou nesta manhã). Talvez estar vivo seja buscar pelo abraço consolador de nossa Amma. Sem esperar nada, além do instante presente de cada segundo. Talvez.

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