tomar uma Coca com você

é ainda mais divertido do que ir ao Rio, a Salvador, Brasília, ao norte ou a Nova Iorque

ou do que passar mal da barriga na casa da tua tia em Barcelona

em parte porque na tua camisa nova você parece com o São Sebastião só que muito melhor e mais feliz

em parte pelo meu amor por ti, em parte pelo teu amor por Pepsi
em parte pelas florzinhas roxas fluorescentes ao redor dos jacarandás
em parte pela confidência dos nossos sorrisos ao redor das pessoas e das estátuas
é difícil crer que quando eu estou contigo possa existir algo mais calmo
mais solene ou mais desagradavelmente definitivo que a solidão das estátuas quando 
estamos bem defronte a elas
na luz morna de Buenos Aires às 4 da tarde nós flutuamos pra cima e pra baixo 
os dois como uma árvore respirando por seus óculos

e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta
você de repente se pega pensando por que alguém no mundo pintaria esses retratos

eu 
olho
pra você e eu preferiria olhar só pra você do que para todos os retratos do mundo
exceto talvez pelo Polish Rider ocasionalmente mas de qualquer forma ele está no Frick 
que graças a Deus você ainda não foi então nós podemos ir juntos pela primeira vez
e o fato de você se mover tão lindamente mais ou menos toma conta do Futurismo
assim como em casa eu nunca penso no Nu Descendo uma Escada ou
num ensaio ou num desenho do Leonardo ou do Michelangelo que costumava me surpreender
e de que serviu todo aquele estudo aos Impressionistas
quando afinal eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar do ladinho da árvore enquanto o sol se põe
ou falando nisso quando o Marino Marini não escolheu tão cuidadosamente o cavaleiro
quanto o cavalo
parece que foram todos enganados por alguma experiência maravilhosa
que eu não vou desperdiçar dessa vez e é por isso que eu te falo tudo isso

[adaptação em português de Having a Coke With You de Frank O’Hara — The Collected Poems of Frank O’Hara by Frank O’Hara, copyright © 1971 by Maureen Granville-Smith]