O Carnaval, ele é lindo.

Enquanto descia a rua da Consolação, no meio de uma quantidade incontável de pessoas desconhecidas, coloridas e dançantes, resolvi pegar o celular. Queria anotar um trecho da música que tocava repetidamente na minha cabeça, enquanto ela animava o trio que seguia guiando a multidão. Com os dedos mal coordenados pela quantidade extra de Catuaba, que já invadia meu corpo sem dó nem piedade, abri uma nota e escrevi: “E a tristeza, nem pode pensar em chegar”.
Caetano Veloso tinha razão. Ela não podia. Mesmo. Não ali no meio daquelas pessoas felizes em apreciar cada minuto do pré-carnaval, que havia começado em hora certa.
Há quem diga que Carnaval é só uma época do ano feita para fugir da realidade e esquecer os problemas do mundo. Ou mesmo uma mera desculpa para encher o copo de álcool. Que seja! Problema grave mesmo deve ser viver sem pausas, sem hiatos. É como aquela sensação de alívio de fechar os olhos, respirar fundo e contar até 10 para um novo ciclo começar. A gente precisa de recomeços.
Ali, no meio de todas aquelas pessoas, ninguém se importava se você estava fantasiado ou se tinha samba no pé. Um passinho descoordenado aqui, outro ali, era motivo para um desconhecido chegar imitando o pandeiro com as mãos, enquanto uma roda se formava ao redor.
Um empurrão sem querer no amigo do lado não era causa para briga. Um “ops, desculpa!” era seguido de “imagina, não foi nada!” com aquele sorriso no rosto. E assim a multidão seguia, feliz e despreocupada.
Enquanto as pessoas dançavam e rodopiavam ao meu redor, parecia que tudo passava em câmera lenta. Talvez fosse o efeito do álcool, talvez não. Compartilhar da mesma energia boa e contagiante de pessoas que a gente não conhece é algo lindo. Que bom que a gente tem a oportunidade de se desligar do mundo um pouquinho e viver o momento sem grandes preocupações, não é?
No meio daquela multidão não tinha espaço para a tristeza. Raiva e rancor não eram bem-vindos. O trabalho estava guardado em um cantinho do cérebro sem acesso no momento. A ansiedade nem se atrevia a chegar perto. O que importava era sambar, cantar, sorrir e jogar confete pro ar. Mais que tudo ser feliz. Estar feliz.
Dizem que o ano só começa mesmo depois do Carnaval. Que bom!
Porque ele é lindo.