Tolerância

As normas infraconstitucionais devem ser interpretadas a luz da Constituição. Começou.

Minha atenção se divide entre as piadas, os conceitos, as anedotas e o mar de tons de cinza nos ternos da majoritária presença masculina. Entre as tantas vezes repetidas ‘liberdade de expressão’ e a mulher inflada em pé a porta falando alto sobre algo que não pode fazer ‘…achei que fosse discriminação’, óbvio, prontamente atendida por um staff. Entre a moça ao meu lado fervorosamente digitando cada palavra dita, uma datilógrafa, penso eu, e a moça a frente dela preenchendo seu celular de fotos.

“A palavra chave é tolerância” diz ele.

A tolerância para aceitar que o verde escuro que eu vejo é preto para você? Que o morador de rua que eu vejo não é nada mais que inconveniência? Que o sofrimento dos meus amigos homossexuais, transsexuais, bissexuais, pansexuais é mera escolha? Que o meu certo poderá ser sempre abominável e se encaixar perfeitamente em seu conceito de errado? Ah, se a tolerância fosse de certo alcançada por todos não seria meramente metade se recusando a proteger os necessitam de proteção e a outra conformada quanto a isso? Não falamos de aceitar que um time de futebol é melhor que outro, estamos falando da dignidade e dos direitos dos seres humanos.

“Ninguém é dono da verdade” diz ele.

Lembro que Nietzsche já dizia:

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.

Me afogo em dúvidas de como fugir ou resgatar a sociedade da ilusão coletiva que o governo nos dispõe qualquer tipo de liberdade.

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